24.12.10

[O poeta dedicado de ascendência humilde]

O poeta dedicado de ascendência humilde
foi sempre um cão batido e se o não fosse
viveria mais infeliz ainda por não ser
o cão batido. É bom no fundo, amigo, leal, o dedicado.
Mas, nas entrelinhas dos sorrisos dele,
há sempre um rosnar doce de contida inveja:
é que outros a quem batem são leões ou alifantes,
porém não cães batidos. E não nasceram
nas palhas da província, embora se não escolha
onde se nasce para cão batido.

Jorge de Sena

DEDICÁCIAS seguido de DISCURSO DA GUARDA, Guerra e Paz Editores, SA, 2010

19.12.10

Russian Orthodox Choir, Sacret Russian singing Chesnokov's "Gabriel Appe...



com a devida vénia, colhido no "cantigueiro" - "Gabriel apareceu" - Coro Ortodoxo Russo - (Pavel Chesnokov)

18.12.10

CAPITAL

Casas,  carros,  casas,  casos.
Capital
              encarcerada.

Colos,   calos,  cuspo,  caspa.
Cautos,  castas.  Calvos,  cabras.
Casos,  casos...    Carros,  casas...
Capital
              acumulado.

E capazes.  E capotas.
E que pêsames!  Que passos!
Em que pensas?  Como passas?
Capitães.  E capatazes.

E cartazes.  Que patadas!
E que chaves!  Cofres,  caixas...
Capital
             acautelado.

Cascos,  coxas,  queixos,  cornos.
Os capazes.  Os capados.
Corpos.  Corvos.  Copos,  copos.
Capital,
             oh! capital,
capital
             decapitada!

David Mourão-Ferreira

LIRA DE BOLSO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1999

12.12.10

VII - LAMENTAÇÃO DO SUICIDA EXPERIENTE

O suicídio é tudo: nada
que me preenche a vida.
O suicídio é mudo, cada
veneno é uma saída.

O suicídio é fundo: anda
por dentro numa ferida.
E o suicídio é o mundo, manda
no trânsito da avenida.

O suicídio é luto: fada
que a luz não me alumia.
E o suicídio é fruto, nada
no sumo da melancia.

O suicídio é imundo: tanta
escuridão no dia.
E o suicídio é chumbo, santa
prisão que me asfixia.

Suicídio, entrudo, manta
sobre o caixão da vida,
brilho, canudo, quanta
mecânica suicida.

Luís Adriano Carlos

OITO FRAGMENTOS DO SUICIDA APRENDIZ, in apeadeiro, revista de atitudes literárias, edições Quasi, N.º 1, Primavera de 2001

2.12.10

[A mão. É esta mão que percorre]

14.

A mão. É esta mão que percorre
a pele curtida por anos,
por anos de livres passos,
por ares de bosques e serras,
e vem aqui aninhar-se
entre estes dedos nodosos,
doridos, desajeitados,
que cumprem o seu dever
para nela pôr o ser
de uma nova liberdade.

Pedro Tamen

O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010

30.11.10

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter im livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão/JL, Fevereiro de 2006

28.11.10

RUA DOS CALDEIREIROS

Às vezes desces a Rua dos
Caldeireiros e perdes-te na

cidade velha. Vais re-
colhendo cheiros texturas

ruídos... Longe dos con-
domínios fechados este

é um lugar onde tudo é
substantivo. Até o verbo

foder. Quando chegas a
casa sentes-te como se

fosses um ladrão vulgar.

Jorge Sousa Braga

PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, Novembro de 2005

18.11.10

Blogue da editora Assírio e Alvim: Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes

Armando Silva Carvalho, com o seu livro, Anthero Areia & Água, vence o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes.

Blogue da editora Assírio e Alvim: Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes

Os meus parabéns ao Poeta.

15.11.10

Manoel de Barros - "Anti-salmo por um desherói"

a boca na pedra o levara a cacto
a praça o relvava de passarinhos cantando
ele tinha o dom da árvore
ele assumia o peixe em sua solidão

seu amor o levara a pedra
estava estropiado de árvore e sol
estropiado até a pedra
até o canto
estropiado no seu melhor azul
procurava-se na palavra rebotalho
por cima do lábio era só lenda
comia o ínfimo com farinha
o chão viçava no olho
cada pássaro governava sua árvore

Deus ordenara nele a borra
o rosto e os livros com erva
andorinhas enferrujadas

Manoel de Barros

GRAMÁTICA EXPOSITIVA DO CHÃO, Editora Record, Rio de Janeiro * S. Paulo, 1999

Poeta Manoel de Barros ganha mais um prêmio literário - cultura - Estadao.com.br

Poeta Manoel de Barros ganha mais um prêmio literário - cultura - Estadao.com.br

14.11.10

[Nada fica de nada. Nada somos]

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos. Nada.

Ricardo Reis

POEMAS DE FERNADO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Edição Visão/JL, Fevereiro de 2006

13.11.10

Almoços grátis

Há almoços grátis, sim está difícil
mas ninguém vai perguntar à entrada
o senhor foi convidado?
somos todos gente e gente honesta
sabemos escolher os talheres (não para os roubar, já não há
                                                             faqueiros de prata
nos almoços grátis)
sabemos alimentar conversa
sem nunca perguntar por que raio é que o almoço é grátis
é incompreensível.

Algures debaixo de um prato
esconde-se a nota de culpa
precisa de factura?
há alguém que não a encontra
geralmente é o anfitrião.

Mas nós emprestamos-lhe
o juro é por conta dele
cobrimos o prejuízo
para não irmos todos presos.

A nota de culpa por debaixo do prato
inclui gorjeta
no mínimo, equitativa.

Sérgio Godinho

O SANGUE POR UM FIO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009

8.11.10

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

5.11.10

Livros a concurso Prémio Literário Casino da Póvoa — Portal da CMPV

Livros a concurso Prémio Literário Casino da Póvoa — Portal da CMPV

A editora do meu livro, Bolsa de Valores e Outros Poemas, resolveu enviá-lo para o concurso Prémio Literário Casino da Póvoa.
Perante os poetas e os livros em presença, alguns deles muito bons, limito-me a citar um amigo: "participar já é uma honra."

Domingos da Mota

3.11.10

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

(...)

A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se,
a ciência columbófila ressente-se por esse condicionamento,
eiva-se de sinecuras e compadrios,
especializa-se em apreciações,
distingue-se entre os méritos e os desméritos
por simonia,
favorecimentos,
invejas comezinhas

(...)

Amadeu Baptista

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO, &etc, Setembro de  2010

1.11.10

FAMÍLIA VENDE TUDO

família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado

Angélica Freitas

A poesia andando: treze poetas no Brasil, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2008

31.10.10

Outubro

Formigas de asas em revoada:
concerto para enforcados.

Luís Serra

Brinquedos de Latão e Sarampo, Lisboa, Apenas Livros, seleccionado para RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março 2010

13.10.10

ROSAS DO DESERTO

Quem disse que as pedras
não podem
florir?

Jorge de Sousa Braga

FOGO SOBRE FOGO, Fenda Edições, Lda., 1998

9.10.10

O MORCEGO

O morcego é pardo com asas pregueadas
como algo posto de lado,
nem uma canção perpassa nos seus lábios,
ou algo perceptível.

O seu pequeno chapéu bizarramente fendido
descreve no ar
um arco de certo modo inescrutável -
enlevado filósofo!

Delegado de que firmamento
de que astuta residência,
empossado com que malevolência,
auspiciosamente retirado.

Ao seu destro criador
imputa não menos louvor;
beneficente podes acreditar
o seu excêntrico ar.

Emily Dickinson

(trad. Jorge Sousa Braga)

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005

7.10.10

O CÃO FIEL

Era um cão fiel...
foi a dar ao rabo atrás do dono
até à oliveira em que aquele
o enforcou com arame.

Joaquim Namorado

A POESIA NECESSÁRIA, Cancioneiro Vértice, Coimbra, 1966

5.10.10

"CANTIGUEIRO": Ricardo Gonçalves & Vital Moreira – A “fome” e a vontade de comer

Com a devida vénia, de "CANTIGUEIRO": Ricardo Gonçalves & Vital Moreira – A “fome” e a vontade de comer.
Perante a crise que grassa por aí, aqui deixo esta ligação, sem mais comentários.

PÃO PARA A BOCA

Livros
e doce de amora - o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

Teresa M. G. Jardim

JOGOS RADICAIS, Assírio & Alvim, Julho 2010

3.10.10

[Depois de nós, não é certamente o dilúvio]

Depois de nós, não é certamente o dilúvio,
e tão-pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima
no Reino da Justiça, com as sua quatro estações, será
temperado, de modo que um colérico, um melancólico,
um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos
de três em três meses cada. Do ponto de vista duma enciclopédia,
é muito. Embora, sem dúvida,
a configuração das nuvens, os caprichos da temperatura
possam confundir um reformador. Porém, o deus
do comércio apenas se dilicia com a procura de flanelas,
guarda-chuvas ingleses, sobretudos forrados.
Os seus inimigos mais ferozes são as meias ponteadas
e os casacos virados. Aparentemente, a chuva lá fora
advoga precisamente esta distintamente frugal
abordagem à paisagem, e mais geralmente, a toda a criação.
Mas porque está ausente da Constituição a palavra "chuva"?
Nela não se fala nem uma só vez
de barómetros ou, já agora, de quem quer
que, empoleirado num banco, com uma bola de lã
de vicunha na mão, como um qualquer Alcibíades nu,
passa a noite a virar as páginas duma revista de modas
nos vestiários do Século de Ouro.

          1994

Iosif Brodskii

Paisagem com inundação, Introdução e tradução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2001

29.9.10

PEACE / PAZ

Perched upon the muzzle of a cannon
A yellow butterfly is slowly opening and shutting its wings.

*

Pendurada no focinho de um canhão
Uma borboleta amarela abre e fecha lentamente suas asas.

Amy Lowell

com a tradução de

Miguel Martins

Telhados de Vidro, N.º 14 . Setembro . 2010

25.9.10

A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar - livros - Ípsilon

Com a devida vénia, aqui deixo a ligação para a notícia publicada por Ana Gerschenfeld, no suplemento ípsilon, do Público, sobre o novo livro de António Damásio, O Livro da Consciência.
A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar - livros - Ípsilon

22.9.10

Ciberescritas » Ferreira Gullar: fica o não dito por dito

Com a devida vénia, deixo aqui a ligação para uma excelente entrevista da jornalista Isabel Coutinho ao Poeta Ferreira Gullar: Ciberescritas » Ferreira Gullar: fica o não dito por dito

18.9.10

[Um sulco, um só soluço, um latejar,]

9.


Um sulco, um só soluço, um latejar,
um lenço de caruma sobre a areia,
um fermentar interno, uma colmeia,
um deslizar da âncora no fundo.
......................................................
......................................................
......................................................
......................................................

Mário Cláudio

Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga, Prefácio de José Carlos Seabra Pereira, Desenhos de Júlio Resende, arcádia, Edição Babel, Maio de 2010

14.9.10

[as mãos perderam as asas]

8.


as mãos perderam as asas.
com a queda
os ossos
ficaram com um punho de terra.

José Félix

Teoria do Esquecimento, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, Maio de 2009

12.9.10

[Quatro seitas]

Quatro seitas
O mesmo sono
sob a lua cheia

Matsuo Bashô

O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, Antologia poética, Versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2006

9.9.10

OS USURÁRIOS

Monstros ornitomorfos,
em grandes jaulas negras,
os usurários.

Aí está Topete Branco (Grande Usurário Real)
e o Usurário-Abutre, o das grandes planuras,
e o Torpedo Vulgar, que devora os filhos,
e o Rabidaga de cauda desprezante,
que devora os próprios pais,
e o Vampiro Mergánsar,
que chupa sangue e voa sob o mar.

No ócio forçado
de suas enormes jaulas negras,
os usurários contam e recontam as plumas
e trocam-nas a juros.

Nicolás Guillén

O GRANDE ZOO, Centelha - Promoção do Livro, SARL, Coimbra, 1973

6.9.10

A VITÓRIA ESSENCIAL

Foi sempre um único homem um pobre homem
que durante séculos e séculos
levantou esta mão que eu levanto agora
na solidão do mundo
em vão sempre e não em vão
em revolta absoluta de incontível humanidade
levanto esta mão que levanto agora
contra
a prepotência diabólica
que um dia será cinza da sua vergonha inominável
cinza sem futuro
absorvida pelo azul da realidade humana essencial.

António Ramos Rosa

                                                                       in Choque e Pavor, 2003

O POETA NA RUA, Selecção e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho de 2005

26.8.10

SONETO CONTRA AS PESPORRÊNCIAS

É favor não pedirem a esta poesia
que faça o jeito às alegadas tendências
do tempo nem às vãs experiências
que sempre a deixaram de mão fria

o que iria bem mas mesmo bem seria
num jornal a coluna das ocorrências
as coisas da vida mais que as pesporrências
editoriais do comentador do dia

o que vai mal com ela são as petulâncias
de que se vestem muitas redundâncias
dando-se públicos ares de sabedoria

que o leitor farto das arrogâncias
magistrais troca por outras instâncias
onde pode mandá-las pra casa da tia

Fernando Assis Pacheco

A MUSA IRREGULAR, Assírio & Alvim, Novembro 2006

21.8.10

CRÓNICAS

Mulheres de canastra à cabeça, que num recôncavo
de esquina, não calcetada, onde uma nesga
de terra desmentia o urbanismo
invasor, mijavam de pé
com rara pontaria dissimulando
entre as grossas saias, as
pernas afastadas. Não usavam cuecas
tal como uma modelo da Vogue,
cujo profundo decote dorsal,
prolongado abaixo da cintura,
as abolia.

Coincidências
da baixa plebe
e da alta-costura.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, & etc, 2010

14.8.10

espinhos

os espinhos florescem
sobre o rosto.
rasgam estas mãos
para melhor dilatarem
a força da corrente.
antecipo a morte
para destruir a morte.
difundo sobre as águas
a imagem do sangue -
que enobrece a madeira
e a pureza da tinta.

Ruy Ventura

INSTRUMENTOS DE SOPRO, Edições Sempre-em-Pé, Março de 2010

4.8.10

Resumo

Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar da sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.

Adélia Prado

com a devida vénia, de Poesia reunida, Editora Siciliano, São Paulo, 1999

1.8.10

DEMÓCRITO

Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.

Eugénio Lisboa

com a devida vénia, de O Ilimitável Oceano (Algumas Observações), Quasi Edições, Março, 2001

30.7.10

RELÓGIO

Batem horas. Pancadas de posse
martelando meu crânio suado.
Batem horas no companheiro ao lado
- um relógio de tosse.

Luís Veiga Leitão

SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, SARL, Porto, Fevereiro de 1973

22.7.10

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

                    negócio
                      ego
                          ócio
                            cio
                              0


José Paulo Paes

POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX  DOS MODERNISTAS À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Fevereiro de 2002

19.7.10

exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny

CESARINY   UMA GRANDE RAZÃO os poemas maiores, Assírio & Alvim, Março de 2007

Cine Surrealista


[Leopuk - Trabalho sobre o cinema surrealista]

17.7.10

"Ao Povo do Mundo", de Fernando Morais

No dia 24 de Julho de 2010, pelas 16.30 horas, no Ateneu Comercial do Porto, vai realizar-se a sessão de apresentação do livro de poemas de Fernando Morais, Ao Povo do Mundo, edição da Temas Originais.

15.7.10

Futebol dos Filósofos


[vídeo de walternetobr sobre comédia de Monty Phyton]

com a devida vénia, retirado de abracadabra!

14.7.10

RELÂMPAGO

Não me orgulho de nada:
O mundo foi severo.
A conta, após contada:
Zero.

Anda à volta de mim
Quem não sabe quem sou.
Eu fui-me sempre assim,
Ou...?

Vejo os outros que passam
Pobres de ser alguém.
Inúteis, ameaçam
Quem?

Um nome vale um ano,
Ou apenas um mês.
Há-de descer o pano
Sem me chegar a vez.

                             (2004)

António Manuel Couto Viana

RESTOS DE QUASE NADA E OUTRAS POESIAS, Averno, Lisboa, 2006

6.7.10

[poeta menor]

Riacho de tão vizinhas
margens na garganta,
voz corrente; em mim,
apenas este açude.
Aqui remodelo
as pequenas estruturas do ócio.
Linguagem pedestre,
sem mesmo a chapelada
sediciosa do til.
E a vida ensaia,
da aleta ao lábio,
a rubrica - sua cava ruga
de mofa sob o pranto.

Sebastião Alba

UMA PEDRA DESTE LADO DA EVIDÊNCIA, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000

13.6.10

[TRÂNSITO DE SENTIDO ÚNICO]

Ao nascer do Sol descemos à praça
por desfastio ou engano: a noite,
que parecia eterna, termina agora
com um intragável gosto a cinza,
a quase nada.

A experiência, o nosso obstáculo.

Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
por que não?

A alternativa não é grande coisa.

Rui Pires Cabral

CAPITAIS DA SOLIDÃO, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2006

5.6.10

A MOSCA

entre mim e a cena
a vidraça
nua a não ser ela

com o ventre por terrra
cintada pelas suas tripas negras
antenas transtornadas asas unidas
patas aduncas boca sugando o ar
acutilando o azul esmagando-se contra o
                                              [invisível
sob o meu polegar impotente ela põe de
                                              [pantanas
o mar inteiro e o céu sereno

Samuel Beckett

POEMAS ESCOLHIDOS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1970 

8.5.10

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e os seus dircursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

2.5.10

[Dói este vocábulo:]

Dói este vocábulo:
Mais secreto
quanto mais o luto
invade.

«PÁTRIA»

Protegido em simulado
vácuo.

Nele procuramos
o osso, a brasa,
a raiz fértil.

Dói este vocábulo:
coração modelado
em labareda.

Egito Gonçalves

O FÓSFORO NA PALHA, Publicações Dom Quixote, Abril de 1970

17.4.10

JANELA DO CONVENTO DE CRISTO EM TOMAR

Um país precisa de uma janela
por onde se possa olhar

Jorge de Sousa Braga

O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999

8.4.10

a palavra no fundo

abaixo do lago
abaixo do medo
abaixo do não

no fundo do fosso
o discurso lodoso
do verbo

Ozias Filho

Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

7.4.10

Transubstanciação da luz

Algures na sombra das árvores
um olhar integral demasiado vivo
a ferir de espanto o amor
a tansubstanciação da luz
rente ao chão

João Manuel Ribeiro

TRAJECTÓRIA INCONSÚTIL DO DESEJO, Edição Livros de Horas (Tropelias & Companhia) Outubro de 2009

1.4.10

[Tenho nós]

Tenho nós
dentro de mim
que tenho
de desatar

Tenho nós
dentro de mim
que me estão
a estrangular

Adília Lopes

                                     LE VITRAIL LA NUIT
                                                     *
                                     A ÁRVORE CORTADA,

                                       &etc, 2006

31.3.10

CORO DAS AMAS DO CARDEAL

Dar a teta a uma criança
ou dar a teta a um bispo
é como entrar numa dança
em que o corpo não descansa
porque o velho não amansa
e eu mais que a teta não dispo.

E se o bispo é cardeal
e o cardeal é regente?
Dar o peito não faz mal
dar o corpo é natural
pois quem manda em Portugal
mama na teta da gente.

Porém deitada na cama
não sou dele nem de ninguém.
Mesmo se o velho me chama
não me importa de ser ama
se quem a carne me mama
me rói os ossos também.

António Lobo Antunes

LETRINHAS DE CANTIGAS, Publicações Dom Quixote, Outubro de 2002

28.3.10

JOGOS

Nunca te disseram
que a aparência é só
o primeiro lance. Em todos
os jogos há sempre
uma carta escondida.

Albano Martins

ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999

25.3.10

PARABÉNS

Neste Fevereiro distante
a alegria poisa devagar

não me quero lembrar de nada
entrego as botas e um a um
entramos no grande centro cultural

o último poeta foi atropelado em Braga
morreu no hospital público
com direito a névoa pela manhã

oh o barulho da responsabilidade
a expansão do deserto ao primeiro toque
começa-se por dormir vestido
e depois o pasmo
o risco de vender um verso por desfastio

João Almeida

GLÓRIA E ETERNIDADE, Edição Teatro de Vila Real, Abril de 2009

20.3.10

Diário

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

Ana Salomé

RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010

18.3.10

E OPOSTOS

O amor e o ódio
ali jazem ambos:
o tempo domando,
o espaço sem bordas.

Sempre revigoram
se findos julgamos
sua seiva morta
seu alor mirrando.

Presentes   de sempre
no desenrolar
do vão dia a dia,

somente eles vencem
qualquer acalmia
e opostos perduram
descontinuados
em estuante luta.

António Salvado

ESSA ESTÓRIA, Portugália Editora, Junho de 2008

14.3.10

FEIOS, PORCOS E MAUS - ETTORE SCOLA (1976)


Compram aos  catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva

MOVIMENTOS NO ESCURO, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Novembro de 2005

10.3.10

[Meia sola é meia sola]

7.


Meia sola é meia sola.
Será por isso que a cola
me cheira tanto a vinagre?

Mas meia sola é milagre.
E eis o que ninguém sabe:
que neste cantinho cabe,
na penumbra da oficina,
na casca do coracol,
esta pequena aspirina
que é a largueza do sol.

Pedro Tamen

O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

8.3.10

SANTO E SENHA

Desengaçar a alegria
do chato amável mundo


                                     Lisboa
                                              VII-91

Fernando Assis Pacheco

RESPIRAÇÃO ASSISTIDA, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003

6.3.10

DE «A CORDIAL BOTELHA»

1

D. Florinda, rotunda,
de seio farto, infarte certo,
lugar-comum e tradição,
desoprime-se comigo
e ralha-me em tom amigo:

- Oh que carago!
Olha que o Porto é uma nação!

2

- Já agora logo de manhã...
Prontificam-se os algarvios
não-te-rales e papa-figos,
quando não querem (que tios!)
que lhes encanem a perninha à rã.

3

Prontifica-se
a fazer,
mas fica-se
no dizer.

Pronto! Fica-se...
Que se lhe
há-de
fazer?

4

Tome cuidado, senão
fazem-no Dr. do pé prà mão.
Mas se Dr. não diz que é,
fazem-no cão da mão prò pé.

Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969

28.2.10

[há o coração é o cão]




há o coração é o cão
preso por uma carícia
não sou eu que o prendo
o cão é que me solta

Joaquim Castro Caldas

, edições apalavrados

18.2.10

10.2.10

O PROFESSOR DE FILOSOFIA

O professor de filosofia saíra do manicómio.
A filha morrera, nunca lhe tinha sido
isso explicado, nem ele, que gostava de lógica,
fora capaz. Os rapazes tinham a mesma idade:
desfrutavam a gaguez, o Sócrates.
Nem piedade ensinava. Aprendia
a cicuta da ferocidade.

António Osório

Planetário e Zoo dos Homens, Editorial Presença, Lisboa, 1990

7.2.10

VIOLENTÁMOS A NATUREZA QUANDO MATÁMOS AS NOSSAS FERAS

Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
copiava uma inocência como feras.

Homens como os feras devoraram
devoraram os anjos como feras.
A inocência vestiu-se de roxo
pelo luto das futuras eras.

Natália Correia

AS Maçãs de ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970

6.2.10

HELIODORO BAPTISTA " Sem data"

            (Ao Luís Carlos Patraquim)


Que tipo de desagregação interior
nos excita a língua, em flecha tensa
para que a bisga, de verdete propensa
acerte na boca labrosta do ditador?

Heliodoro Baptista

Poemas, Leya, Janeiro de 2009

1.2.10

TÚNEL

E então, de quando em quando,
no meio da escuridão,
a redundância de um túnel.

Deus, por onde andava eu
quando a luz foi repartida?

A. M. Pires Cabral

QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

28.1.10

RESTRIÇÕES

Restrito: peça invadida
em móveis: cadeiras
                dispostas
                em volta
                da mesa
                posta: a disposição
da fome, o engulho
da comida requentada
no esbulho; cortinas
encerradas na artificialidade
das luzes decompõem
a imagem; o armário
alto de copos e pratos;

             o vidro quebrado no canto
             inferior direito: a restrição.

Pedro Du Bois

(inédito)

21.1.10

Ideologia 1

Tinha um braço maneta e para o esconder
Andava sempre com uma bandeira.

Tasos Leivaditis

Di Versos, Revista semestral de Poesia e Tradução - N.º 8, Inverno de 2004

19.1.10

ARREPIO NA TARDE

Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.

Eugénio de Andrade

Os Sulcos da Sede, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Setembro de 2001

18.1.10

A FACA

A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe lume pedra
lume silêncio metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

José Carlos Ary dos Santos

OBRA POÉTICA, edições Avante!, Julho de 1999

13.1.10

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões de tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
                                                                           [sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006