31.10.10

Outubro

Formigas de asas em revoada:
concerto para enforcados.

Luís Serra

Brinquedos de Latão e Sarampo, Lisboa, Apenas Livros, seleccionado para RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março 2010

13.10.10

ROSAS DO DESERTO

Quem disse que as pedras
não podem
florir?

Jorge de Sousa Braga

FOGO SOBRE FOGO, Fenda Edições, Lda., 1998

9.10.10

O MORCEGO

O morcego é pardo com asas pregueadas
como algo posto de lado,
nem uma canção perpassa nos seus lábios,
ou algo perceptível.

O seu pequeno chapéu bizarramente fendido
descreve no ar
um arco de certo modo inescrutável -
enlevado filósofo!

Delegado de que firmamento
de que astuta residência,
empossado com que malevolência,
auspiciosamente retirado.

Ao seu destro criador
imputa não menos louvor;
beneficente podes acreditar
o seu excêntrico ar.

Emily Dickinson

(trad. Jorge Sousa Braga)

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005

7.10.10

O CÃO FIEL

Era um cão fiel...
foi a dar ao rabo atrás do dono
até à oliveira em que aquele
o enforcou com arame.

Joaquim Namorado

A POESIA NECESSÁRIA, Cancioneiro Vértice, Coimbra, 1966

5.10.10

"CANTIGUEIRO": Ricardo Gonçalves & Vital Moreira – A “fome” e a vontade de comer

Com a devida vénia, de "CANTIGUEIRO": Ricardo Gonçalves & Vital Moreira – A “fome” e a vontade de comer.
Perante a crise que grassa por aí, aqui deixo esta ligação, sem mais comentários.

PÃO PARA A BOCA

Livros
e doce de amora - o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

Teresa M. G. Jardim

JOGOS RADICAIS, Assírio & Alvim, Julho 2010

3.10.10

[Depois de nós, não é certamente o dilúvio]

Depois de nós, não é certamente o dilúvio,
e tão-pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima
no Reino da Justiça, com as sua quatro estações, será
temperado, de modo que um colérico, um melancólico,
um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos
de três em três meses cada. Do ponto de vista duma enciclopédia,
é muito. Embora, sem dúvida,
a configuração das nuvens, os caprichos da temperatura
possam confundir um reformador. Porém, o deus
do comércio apenas se dilicia com a procura de flanelas,
guarda-chuvas ingleses, sobretudos forrados.
Os seus inimigos mais ferozes são as meias ponteadas
e os casacos virados. Aparentemente, a chuva lá fora
advoga precisamente esta distintamente frugal
abordagem à paisagem, e mais geralmente, a toda a criação.
Mas porque está ausente da Constituição a palavra "chuva"?
Nela não se fala nem uma só vez
de barómetros ou, já agora, de quem quer
que, empoleirado num banco, com uma bola de lã
de vicunha na mão, como um qualquer Alcibíades nu,
passa a noite a virar as páginas duma revista de modas
nos vestiários do Século de Ouro.

          1994

Iosif Brodskii

Paisagem com inundação, Introdução e tradução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2001