18.11.22

Ponto final, parágrafo

A morte não bate à porta,
acomete, não avisa
e, sem mesuras, fatal,
dita o ponto final.

O parágrafo seguinte
serão outros a escrevê-lo,
com mais ou menos desvelo,
com mais ou menos requinte.


© Domingos da Mota

6.11.22

Jerónimo

na luta
uma voz
a voz activa

de tantos dos sem voz
ou de voz 
passiva


Domingos da Mota

2.11.22

Tresanda

cheira, fede, tresanda
a ódio por essas bandas



© Domingos da Mota

15.10.22

Bar da Estação

Lamento
o seu
encerramento


                     Viana do Castelo, 15/10/2022

26.9.22

A PRAXE, NÃO

Se houvesse praxe que elevasse
e não a praxe que abaixa e humilha
(onde um rebanho tende a tornar-se
numa matilha);

e a praxe fosse modo de estar
e receber bem um caloiro,
e não um bando que o rebaixasse
em pêlo, em couro,

talvez pudesse olhar a praxe
como um processo de iniciação.
Mas sendo a praxe para aviltar,
tal praxe, não.


Domingos da Mota

7.9.22

Das pensões e reformas I

Dão-te um chouriço.
Tiram-te um porco.

2.8.22

Retórica da guerra

Propaganda
Contrapropaganda

Verdades
Meias-verdades

Mentiras
Pós-verdades

DM

21.7.22

Se não tens a certeza

Se não tens a certeza
não digas que
não asseveres

estuda
investiga
analisa
questiona


Domingos da Mota

7.4.22

[Albarde-se o dono]

Albarde-se o dono
à vontade
do burro


© Domingos da Mota 

27.3.22

Olhos de mosca



Em vez das palas do pensamento 
unidimensional, dia após dia, a visão 
de mosca, que bom seria


© Domingos da Mota





26.3.22

O ÁLIBI DO MAL

Separados por biombos de peluche,
sem nada para ler ou esperar, assimilamos
por fim o edital da derrota,
encaixamos o cansaço como um soco
na língua e entregamos ao desânimo
o migalho de madeira com que contávamos,
estupidamente, aquecer mais um Inverno.

Campanários sepultados em monturos,
a isto chegámos: a nulidade da razão
estrangulada, com sua voz de sino mole
a musicar a capoeira do instinto,
no abismo da natura devastada.

Entretanto, nas notícias, baterias de peritos
acolitam, iludidos, espectáculos de treva,
sugerem emoções, ensinam o rebanho
a construir o seu curral, suplicando
que a história passe longe do estouro.

O que resta é absurdo e penitente:
trocar a pilha ao relógio de sol,
acertá-lo pela hora da morte.
O álibi do mal é fazer-se desejar.


José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Lisboa, Junho de 2017

20.3.22

Gastão Cruz (1941-2022)

VISÃO DE HERBERTO HELDER
DA MORTE DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

cf. HH, Poemas Canhotos

António ramos rosa cuja morte
herberto viu sem a ela assistir
estava, segundo o testemunho obtido
através da visão vinda num frio
relâmpago, deitado numa cama
a dele, contra a parede

Há que dar meia volta com a cara
contra a parede para entrar na morte
totalmente
isso aprendeu herberto e compreendeu
ao ver-se nessa morte em que não estava
que se via num espelho

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro de 2017

5.3.22

Prolegómenos a um armistício pró-paz

Ir ao encontro do outro
Aproximar-se do outro
Cumprimentar o outro
Sentar-se à mesa com o outro
Olhar o outro nos olhos
Ver o outro
Reparar no outro
Falar com o outro
Conversar com o outro
Ouvir o outro
Escutar as razões do outro

Expor as suas razões
Debater as razões de ambos
Pôr-se no lugar do outro
Manter a cabeça fria
Congelar o ódio
Suspender os combates
Abrir corredores de segurança
Não acossar o outro
Não cercar o outro
Não intimidar o outro
Não humilhar o outro

Não massacrar o outro
Não aterrar o outro
Não devastar o outro
Negociar com o outro
Declarar tréguas
Respeitar o outro
Respeitar-se a si mesmo
Tratar com o outro
Selar o armistício
Reconstruir pontes
Abrir caminhos para a paz



© Domingos da Mota

29.1.22

Dia de reflexão

O pão fresco de cada dia nos dai hoje
e não o pão que o diabo amassou nos dai amanhã. 


© Domingos da Mota

1.1.22

FICÇÃO CIENTÍFICA

Se eu tivesse uma máquina do tempo,
Teria de ter cuidado,
Porque essa máquina,
Como todas as máquinas,
Teria um tempo
De duração,
E, um belo dia,
Deixar-me-ia
Parado
A meio de um desastre
Do futuro
Ou do passado.


José Pascoal

Branza, Editorial Minerva, Lisboa, Agosto de 2019

26.12.21

João Paulo Cotrim (1965-2021)

Não devia ser assim:
chegar-se tão cedo
ao fim.

© Domingos da Mota


 

22.12.21

[Quem tem cu tem medo]

Quem tem cu tem medo
e sobre o sofrimento nunca se enganaram,
os velhos mestres.



Andreia C. Faria

Este Fresco Sanatório para o Sangue, Editor Câmara Municipal do Porto - Museu da Cidade, Porto, agosto de 2021

27.11.21

Casa aberta

De manhã, a casa estava
como o anúncio dizia,
aberta pra quem chegava
e a vacina queria.

Nem sequer bati à porta;
vendo a porta escancarada,
pus-me na fila que importa
e foi-me inoculada

no braço esquerdo a terceira
dose contra a covid
(fosse esta a derradeira),
mas se o vírus se divide

em contínua mutação
cada vez mais agressivo,
inda a nova procissão
vai no adro - e mais não digo.


© Domingos da Mota

24.10.21

porque hoje é domingo

paradigma
upgrade 
sinodal

(palavras simples de um sermão
episcopal)


[abrindo a televisão ao acaso, TVI, manhã de 24.10.2021]


DM

4.10.21

Pandora papers

Quem chora?
Quem ri?
Quem offshore?

© Domingos da Mota

18.8.21

[Se buscas um confidente]

Se buscas um confidente
para guardar um segredo,
cuida bem, que certa gente
fala pelos cotovelos.


© Domingos da Mota