5.2.26

Os olhos

Os olhos cansados
de fiar debruam de luar,
de breu, de bruma

as cordas negras
do tear espesso do tempo
que se esfuma.


Domingos da Mota

Pequeno tratado das sombras e outros poemas

1.2.26

será gente

será gente
(diz-se crente)
esta gente
prepotente?

será gente
(mas que gente)
essa gente
inclemente?

gente crente
ou descrente
fosse gente
simplesmente.


Domingos da Mota









30.1.26

29.1.26

Corvo

De cravo negro
como se corvo
leveda o medo
e choca o ovo.

Ovo de cuco
ou de serpente
est'ovo podre
remanescente?

© Domingos da Mota

Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Audio)

26.1.26

motejo

o homem 
diz-se cristão:

ajoelha-se e reza
com as mãos em oração.

repica o sino:
dlim!

mas 
ferozmente despreza
a quem Cristo deu a mão.

toque a rebate:
dlão!


Domingos da Mota

16.1.26

o idiota

o idiota maiúsculo
o idiota minúsculo
o idiota evidente
o idiota somente
o idiota febril 
o idiota frívolo 
o idiota hostil
o idiota passivo
o idiota frenético
o idiota benquisto
o idiota maléfico
o idiota sinistro 
o idiota irascível
o idiota verdugo
o idiota sensível
o idiota & tudo


© Domingos da Mota



15.1.26

Do tardo-fascismo

Com aura de redentor,
de salvador da nação,
um serôdio seguidor
do de Santa Comba Dão

anda à solta no país
(não é Dom Sebastião)
e arrancará p'la raiz
a liberdade, se não

se enfrentar sem mas, a sério,
o torvo neofascista,
lambe-botas do império
com ar de salazarista.


Domingos da Mota

[revisto]

12.1.26

Epigrama cautelar

Cautela com os velhacos:
fracos com os fortes;
fortes com os fracos.

© Domingos da Mota

4.1.26

17.10.25

António Borges Coelho (1928-2025)


 Pesar, muito pesar!

(fotografia colhida na net)

24.8.25

Maestro José Luís Borges Coelho (1940-2025)


Pesar. Muito pesar!
              
                                         (Fotografia de Egídio Santos)
 

13.8.25

Isto não é um haiku

oh, anda ver
o petróleo verde
a arder


Domingos da Mota

10.8.25

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012

3.7.25

Ponto final, parágrafo

A morte não bate à porta,
acomete, não avisa
e, sem mesuras, fatal,
dita o ponto final.

O parágrafo seguinte
serão outros a escrevê-lo
com mais ou menos desvelo,
com mais ou menos requinte.


© Domingos da Mota

13.6.25

LITANIA

     É grande o deus da guerra, e é seu reino
     Um campo como milhares a apodrecer.

     Stephen Crane



E a guerra,
a besta imunda desenfreada,
feroz, mais atroz que mil invernos

queima e devasta e devora
os próprios filhos que afunda
no mais fundo dos infernos


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

19.1.25

sonhei

sonhei
que um fogo vindo do céu
devastava a América.

o homem sonha.
se deus quiser
a obra nasce.

Alberto Pimenta


QUE LAREIRAS NA FLORESTA [de as moscas de pégaso], 7 nós, Porto, Janeiro de 2010

31.12.24

Adília Lopes (1960-2024)

Tenho uma vida
a viver
e uma morte
a morrer


Adília Lopes



LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA
, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006

8.12.24

Avó

minha santíssima avó
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação

sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo

compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada

nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos

quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão

sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra

Zbigniew Herbert

POESIA QUASE TODA (1956-1998)
, Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024

21.10.24

Grandessíssimo

Como é rico, oh, 
riquíssimo esse grande
grandessíssimo!


© Domingos da Mota

7.10.24

DE SÚBITO

Irrompem, de súbito,
relâmpagos e trovões –
tempestade seca.

© Domingos da Mota



in 'Tempestade seca e outros poemas', e "Eufeme n.º 23, Magazine de Poesia (Abril/Junho 2023)", Editor e coordenador, Sérgio Ninguém

27.7.24