Morcegos & olhimancos
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Livro dos Conselhos, El-Rei D. Duarte
15.9.26
12.8.26
[Quem apadrinha e faz coro]
Quem apadrinha e faz coro
com as toadas de ódio,
protelando, sem decoro,
que se desate o nó górdio?
com as toadas de ódio,
protelando, sem decoro,
que se desate o nó górdio?
Domingos da Mota
9.8.26
perder a face
se há quem passe
e quem repasse
e quem trespasse
palavras-passe
casas de passe
e isto dá-se
e aquilo faz-se
sem que caia
ou perca a face
e quem repasse
e quem trespasse
palavras-passe
casas de passe
e isto dá-se
e aquilo faz-se
sem que caia
ou perca a face
Domingos da Mota
30.7.26
Alta figura
Quando uma alta figura
se afigura lambe-botas
(e norteia a compostura
usual por linhas tortas)
assemelha-se a
um tartufo surreal,
um alto verbo-de-encher
sem coluna vertebral.
se afigura lambe-botas
(e norteia a compostura
usual por linhas tortas)
assemelha-se a
um tartufo surreal,
um alto verbo-de-encher
sem coluna vertebral.
Domingos da Mota
3.7.26
[Vale a pena discutir]
Vale a pena discutir
por razões que a razão tece
com quem grita, manda vir
e a razão desconhece?
por razões que a razão tece
com quem grita, manda vir
e a razão desconhece?
E travar-se de razões,
aumentar os decibéis
por meras opiniões
sobre dedos e anéis,
quem os mantém, quem os perde,
perdendo o pé e a razão
quando a disputa referve
e engrossa a discussão?
© Domingos da Mota
© Domingos da Mota
23.6.26
[São João, sem alho porro]
São João, sem alho porro
não me verás na noitada.
Por martelos eu não corro,
e gosto da martelada.
não me verás na noitada.
Por martelos eu não corro,
e gosto da martelada.
Domingos da Mota
30.5.26
16.5.26
31.3.26
14.3.26
LITANIA
É grande o deus da guerra, e é seu reino
Um campo como milhares a apodrecer.
Stephen Crane
E a guerra,
a besta imunda desenfreada,
feroz, mais atroz que mil invernos
queima e devasta e devora
os próprios filhos que afunda
no mais fundo dos infernos
© Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
Um campo como milhares a apodrecer.
Stephen Crane
E a guerra,
a besta imunda desenfreada,
feroz, mais atroz que mil invernos
queima e devasta e devora
os próprios filhos que afunda
no mais fundo dos infernos
© Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
12.3.26
5.2.26
Os olhos
Os olhos cansados
de fiar debruam de luar,
de breu, de bruma
as cordas negras
do tear espesso do tempo
que se esfuma.
de fiar debruam de luar,
de breu, de bruma
as cordas negras
do tear espesso do tempo
que se esfuma.
Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras e outros poemas
15.1.26
Do tardo-fascismo
Com aura de redentor,
de salvador da nação,
um serôdio seguidor
do de Santa Comba Dão
anda à solta no país
(não é Dom Sebastião)
e arrancará p'la raiz
a liberdade, se não
se enfrentar sem mas, a sério
o torvo neofascista,
lambe-botas do império
com ar de salazarista.
de salvador da nação,
um serôdio seguidor
do de Santa Comba Dão
anda à solta no país
(não é Dom Sebastião)
e arrancará p'la raiz
a liberdade, se não
se enfrentar sem mas, a sério
o torvo neofascista,
lambe-botas do império
com ar de salazarista.
Domingos da Mota
4.1.26
18.10.25
17.10.25
31.8.25
29.8.25
24.8.25
10.8.25
BILHETE-POSTAL NEGRO
I
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
é cosido em silêncio.
Tomas Tranströmer
50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
é cosido em silêncio.
Tomas Tranströmer
50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012
19.1.25
sonhei
sonhei
que um fogo vindo do céu
devastava a América.
o homem sonha.
se deus quiser
a obra nasce.
Alberto Pimenta
QUE LAREIRAS NA FLORESTA [de as moscas de pégaso], 7 nós, Porto, Janeiro de 2010
que um fogo vindo do céu
devastava a América.
o homem sonha.
se deus quiser
a obra nasce.
Alberto Pimenta
QUE LAREIRAS NA FLORESTA [de as moscas de pégaso], 7 nós, Porto, Janeiro de 2010
31.12.24
Adília Lopes (1960-2024)
Tenho uma vida
a viver
e uma morte
a morrer
Adília Lopes
LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006
a viver
e uma morte
a morrer
Adília Lopes
LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006
8.12.24
Avó
minha santíssima avó
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação
sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo
compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada
nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos
quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão
sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra
Zbigniew Herbert
POESIA QUASE TODA (1956-1998), Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação
sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo
compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada
nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos
quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão
sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra
Zbigniew Herbert
POESIA QUASE TODA (1956-1998), Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024
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