Quando a bola carambola rebola do cocuruto e fica presa ao umbigo e o ego sobe à tola e a tola num arrufo vê no outro o inimigo; quando a soberba se atola e atasca no umbigo e o ego desenrola o abandono da bola e deserta sem castigo; quando a bola incendeia discussões em todo o lado e distrai, armada a teia, do que importa ser levado a sério - eis o perigo!
Não lhe pesa a consciência, nem sente qualquer remorso, nem perante a evidência do desastre faz um esforço para ver a incoerência entre o que diz e o que faz quando apregoa inocência (à sombra de frei Tomás). Se quem exige dos outros uma postura impoluta corre atrás de valhacoutos que o salvem na disputa onde imagina sicários, não será um salafrário?
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto. O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade. Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida, e a vida continua. O fato, porém, esse é cosido em silêncio.
Tomas Tranströmer
50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012