1.2.26

será gente

será gente
(diz-se crente)
esta gente
prepotente?

será gente
(mas que gente)
essa gente
inclemente?

gente crente
ou descrente
fosse gente
simplesmente.


Domingos da Mota









30.1.26

29.1.26

Corvo

De cravo negro
como se corvo
leveda o medo
e choca o ovo.

Ovo de cuco
ou de serpente
est'ovo podre
remanescente?

© Domingos da Mota

Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Audio)

26.1.26

motejo

o homem 
diz-se cristão:

ajoelha-se e reza
com as mãos em oração.

repica o sino:
dlim!

mas 
ferozmente despreza
a quem Cristo deu a mão.

toque a rebate:
dlão!


Domingos da Mota

16.1.26

o idiota

o idiota maiúsculo
o idiota minúsculo
o idiota evidente
o idiota somente
o idiota febril 
o idiota frívolo 
o idiota hostil
o idiota passivo
o idiota frenético
o idiota benquisto
o idiota maléfico
o idiota sinistro 
o idiota irascível
o idiota verdugo
o idiota sensível
o idiota & tudo


© Domingos da Mota



15.1.26

Do tardo-fascismo

Com aura de redentor,
de salvador da nação,
um serôdio seguidor
do de Santa Comba Dão

anda à solta no país
(não é Dom Sebastião)
e arrancará p'la raiz
a liberdade, se não

se enfrentar sem mas, a sério,
o torvo neofascista,
lambe-botas do império
com ar de salazarista.


Domingos da Mota

[revisto]

12.1.26

Epigrama cautelar

Cautela com os velhacos:
fracos com os fortes;
fortes com os fracos.

© Domingos da Mota

11.1.26

Louvaminheiro

De sorriso manso
e louvaminheiro
faz de ti tanso
o embusteiro.

Domingos da Mota

9.1.26

Com a pose de Messias

Com a pose de Messias,
promessas de salvador,
quantos meses, quantos dias,
quantos banhos de água fria
até cair do andor?


Domingos da Mota

Pequeno tratado de comércio

Trocam o santo-e-senha,
cortesias e louvores -
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores.


Domingos da Mota

6.1.26

O facilitador

Mostrará obra que valha
uma agulha no palheiro,
olhando os rabos-de-palha,
quem sendo useiro e vezeiro
no comércio de mesuras,
obséquios, cortesias,
um olho nas sinecuras
e outro nas conezias
em troca de veniagas
que permuta por alvíssaras,
cadeiras e vitualhas,
com a máscara postiça,
ou será, em bom rigor,
tão-só facilitador?


Domingos da Mota

4.1.26

4.12.25

Ecos da campanha

Com o dom da ubiquidade
do centrão para a direita,
onde enraíza a verdade,
com que máscara se enfeita?


Domingos da Mota

22.11.25

Independente

De quem dependes,
independente?
A quem te vendes
veladamente?

© Domingos da Mota

17.10.25

António Borges Coelho (1928-2025)


 Pesar, muito pesar!

(fotografia colhida na net)

4.9.25

PQP



     (...) Não te sentes feliz
     se o povo reza livremente o terço no país
     e são muito cristãos os nossos governantes?

     Ruy Belo



Desde o berço,
Vai à missa,
Reza o terço,

Não pragueja
(Como manda
A madre igreja).

Só diz, chiça!
Irra! Apre!
Mesmo que

A PQP

Entre
Dentes
Lhe escape.


© Domingos da Mota

24.8.25

Maestro José Luís Borges Coelho (1940-2025)


Pesar. Muito pesar!
              
                                         (Fotografia de Egídio Santos)
 

13.8.25

Isto não é um haiku

oh, anda ver
o petróleo verde
a arder


Domingos da Mota

10.8.25

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012

3.7.25

Ponto final, parágrafo

A morte não bate à porta,
acomete, não avisa
e, sem mesuras, fatal,
dita o ponto final.

O parágrafo seguinte
serão outros a escrevê-lo
com mais ou menos desvelo,
com mais ou menos requinte.


© Domingos da Mota

13.6.25

LITANIA

     É grande o deus da guerra, e é seu reino
     Um campo como milhares a apodrecer.

     Stephen Crane



E a guerra,
a besta imunda desenfreada,
feroz, mais atroz que mil invernos

queima e devasta e devora
os próprios filhos que afunda
no mais fundo dos infernos


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

24.4.25

Basta, bonda!

Não me vou achegar nem sequer dar-me 
com quem chega a tal ponto: basta, bonda!
Abundam por aí, querem guiar-te,
e levantam o facho e vão na onda

e ameaçam nas praças e avenidas 
e difundem o eco nas pantalhas
(a saudação romana reaviva 
o sonho celerado de canalhas).

À turba que destila ódio e fel, 
movida pela cega obsessão
contra o outro, o diferente, o de fora,

acenam com o pão, 
o vinho e o mel
(ocultando a pesada mão de ferro 
onde quer que dominem, como outrora).

© Domingos da Mota

24.2.25

[Quem apadrinha e faz coro]

Quem apadrinha e faz coro

com as toadas de ódio,

postergando, sem decoro,

que se desate o nó górdio?


Domingos da Mota

19.2.25

Negociações de paz

Enquanto uns partem

pedra, outros projectam

mais pedregulhos


Domingos da Mota