03/10/2010

[Depois de nós, não é certamente o dilúvio]

Depois de nós, não é certamente o dilúvio,
e tão-pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima
no Reino da Justiça, com as sua quatro estações, será
temperado, de modo que um colérico, um melancólico,
um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos
de três em três meses cada. Do ponto de vista duma enciclopédia,
é muito. Embora, sem dúvida,
a configuração das nuvens, os caprichos da temperatura
possam confundir um reformador. Porém, o deus
do comércio apenas se dilicia com a procura de flanelas,
guarda-chuvas ingleses, sobretudos forrados.
Os seus inimigos mais ferozes são as meias ponteadas
e os casacos virados. Aparentemente, a chuva lá fora
advoga precisamente esta distintamente frugal
abordagem à paisagem, e mais geralmente, a toda a criação.
Mas porque está ausente da Constituição a palavra "chuva"?
Nela não se fala nem uma só vez
de barómetros ou, já agora, de quem quer
que, empoleirado num banco, com uma bola de lã
de vicunha na mão, como um qualquer Alcibíades nu,
passa a noite a virar as páginas duma revista de modas
nos vestiários do Século de Ouro.

          1994

Iosif Brodskii

Paisagem com inundação, Introdução e tradução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2001

Sem comentários:

Enviar um comentário