5.12.15

Aves de arribação

Partiram duma assentada
e da noite para o dia
numa grande revoada
treze amigos. Não previa

as aves de arribação,
mas perante um bando destes
mais vale um amigo à mão
do que muitos longe ou prestes

a voar sem dar cavaco,
a fugir sem um aviso,
sem um gesto, mesmo fraco.
E navegar é preciso!

Domingos da Mota

[inédito]

29.9.15

FRAGMENTOS

Escritor - homem casado?
Sempre escritor-de-domingo.
Não tem o momento azado,
sua arte é pingo a pingo.

Alexandre O'Neill

ANOS 70 poemas dispersos, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2005

23.9.15

Passa-culpas

Um lesado, dois lesados,
cem lesados, muitos mais
interpelam com mandados 
e libelos literais
os mandantes, paus-mandados
que tantas coisas e tais
garantiram, mas com dados
profusamente irreais.
E perante a roda-viva,
a onda de desespero,
há quem finja, quem se esquive,
quem denegue e assevere
um bisonho passa-culpas
sem sentido nem desculpas.

Domingos da Mota

[inédito]

17.9.15

Debate

Não sei quem ganhou,
mas perco com ambos:
nenhum condenou,
olhando os escambos,

tratados, desgraças,
ferozes matilhas,
as graves trapaças
e as moscambilhas.

Dizer quem ganhou,
não vale uma aposta.
Mas sei quem ficou
a arder e não gosta

do muito que sói
dizer-se que dói.

Domingos da Mota

[inédito]

15.9.15

Quadra

Lá se foi um guarda-chuva
com as rajadas de vento.
Pudesse eu secar as dúvidas
que afogam o pensamento.

Domingos da Mota

[inédito]

30.7.15

Silogismos da amizade

Um amigo, sendo amigo,
não te trai nem ferra a mão:
abrigo no desabrigo,
certamente está contigo
mesmo quando te diz não.

O que se finge de amigo,
não vale a pena, é mau:
esconde no seu umbigo
a ameaça do perigo,
o veneno de lacrau.

Domingos da Mota

Clube Literário do Porto, 27.09.2009

23.7.15

Diatribe

Será segunda figura
(ou figura de segunda)
a que perde a compostura
na diatribe iracunda,
se desbocada, sem tento
na língua diz disparates
e o faz com espavento
e amplifica os dislates
quando cita, sem rigor,
Simone de Beauvoir
e compara o clamor
dos que ousam protestar,
com os carrascos nazis -
esse libelo infeliz?

Domingos da Mota

[inédito]

24.6.15

Isto não é um retrato

(mas uma caricatura do sr Gregório, comentador residente em diversos órgãos de comunicação social)


Não sou grego! Sou Gregório.
Misto de portas e passos,
com um grande relambório
e com falsos enchumaços

que me protegem de apertos
e de tumultos voláteis,
pois os meus ombros discretos,
submissos, mas retrácteis,

aguentam muito peso,
suportam qualquer vexame,
pois já disse, não sou grego
e passo sempre no exame -

bom aluno, um idiota
que venera os agiotas.

Domingos da Mota

[inédito]

Passaredo- Chico Buarque

10.6.15

Glosa sobre a mitomania urbana

Foi um conselho, bem sei.
Não foi decreto, edital,
portaria, qualquer lei,
imposição. E afinal,

quem seguiu esse conselho
para emigrar e partir,
sendo novo, e até velho,
e se atreveu a sair

em busca doutro lugar,
doutro país, doutra gente,
onde pudesse singrar,
ter uma vida decente,

saiu da zona de conforto,
por acaso, por desporto?

Domingos da Mota

[inédito]

14.5.15

RADAR

    (É um blog de poesia?
     Pois também o lê a CIA...)

     Luís Filipe Castro Mendes


A CIA lê e relê
o que pode e o que não pode,
sobretudo se treslê
o que vê nalgum blog.

Se ao Tim Tim no Tibet
segue os passos, na penumbra,
para ver se o compromete
de mãos dadas com a sombra

dum oximoro exótico
que não saiba decifrar
através do nervo óptico,

do olho do seu radar,
fica com ar psicótico,
mas mantém-se a espiolhar.

Domingos da Mota

[inédito,
a partir da leitura do poema PUBLICIDADE, de Luís Filipe Castro Mendes, na sua página do Facebook]

2.5.15

O exemplo

Observo o exemplo
que tens para dar:
reparo, contemplo,
e volto a olhar

a ver se o sujeito
é tal como dizes,
ou se o conceito
que tens dos deslizes,
das fraudes, dos logros,
de tantos enganos,
não causa malogros,
sequer desenganos.

Observo o exemplo,
e sendo quem é,
multiplica o cêntuplo
de tiros no pé.

Domingos da Mota

[inédito]

12.4.15

De facto

Não era cego, e batiam-lhe
como se fosse um ceguinho,
arremessavam-lhe pedras,
punham pedras no caminho,
traziam as mãos fechadas
como punhos, e cediças
as línguas, muito afiadas,
eram garras inteiriças
a difamar-lhe o bom nome, 
a sua reputação,
tal a sede, tal a fome
da cerrada oposição
contra esse candidato
a candidato, de facto.

Domingos da Mota

[inédito]

6.4.15

Rascunho

Lapsus linguae


Mais que lapsos são relapsos
os dislates abstrusos,
em directo, nos apartes
de notáveis linguarudos.

Domingos da Mota

[inédito]

1.3.15

MÁ CONSCIÊNCIA

O adjectivo 
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?

Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo,
não por ilusão.

Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

10.2.15

DA VIOLÊNCIA

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.

Bertolt Brecht

Poemas, Tradução (com a colaboração de Sylvie Deswarte), Selecção, Estudos e Notas de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lisboa