31.12.16

PASSAGEM DE ANO

Um ano passa, vem outro:
Se fosse novinho em folha,
Mas de novo tem apenas
A folha do calendário,
O aumento dos impostos,
Das portagens, das viagens
E das coisas necessárias
Para uma vida frugal.
Mas que venha, nasça e cresça
E avance dia a dia,
Frutifique e amadureça
E distribua a alegria.

Domingos da Mota

[inédito]

13.11.16

LÍNGUA

A seca foi braba naquele ano.
O pai falou: Lá evém uma língua de fogo
do lado da Bolívia
e vai lamber todo o pasto.
O menino assustou: Língua de fogo?
O pai explicou ao menino que se tratava
de imagem.
Língua de fogo é apenas uma imagem.
Mas, pela dúvida, o menino retirou seu
cachorro da imagem.

Manoel de Barros

POEMAS RUPESTRES, Editora Record, Rio de Janeiro . São Paulo, 2004

28.10.16

PANDEMIAS

Peste negra
Cólera
Tuberculose
(Peste branca)

Varíola
Gripe espanhola
Tifo
Febre-amarela

Poliomielite
Sarampo
Malária

Sida
Gripe das aves
Peste grisalha


Domingos da Mota

[inédito]

19.10.16

MÁQUINA

Vende-se
Máquina de fazer sonetos
Marca Ghost Writer Poetry

Em bom estado
Pela melhor oferta
Resposta para
  
Caixa Postal 3333-333
Rua de Camões
Cidade dos Poetas

Domingos da Mota

[inédito]

15.10.16

de literatura

eu que de literatura só sei
que nada sei,
quem tem uma guitarra
e um bom poema
é rei

Domingos da Mota

13 de Outubro de 2016

9.10.16

Quadra politicamente incorrecta/1

Seguindo as leis do mercado
Sem um mínimo pudor
Quem faz o diabo a quatro
Pode ser comendador.

Domingos da Mota

8.9.16

Café

Vou
tomar um café.
Depois do almoço
o café sabe-me bem,
sempre que posso.

Se
deixar de poder
(por prescrição),
depois resolverei
se irei ou não.

Domingos da Mota

[inédito]

28.8.16

Estudo para soneto: a ver passar comboios

Alfa Pendular
Intercidades
Urbano
Urbano

Alfa Pendular
Urbano
Urbano
Urbano

Intercidades
Mercadorias
Especial

Alfa Pendular
Urbano
Regional

Domingos da Mota

[inédito]

27.8.16

cimbalino

um cimbalino
por favor
- um quê?
- cimbalino:
café
curto
de máquina:
nem descafeinado
nem café
pingado
nem cevada:
um cimbalino
como 
no piolho

Domingos da Mota

[inédito]

26.8.16

soneto, com estrambote

a corrente de ar
os brônquios
a corrente de ar
os pulmões

a febrícula
a febre
a tosse
a consulta

o médico:
inspire
expire

diga 33
o doente:
33

33
33

Domingos da Mota

[inédito]

19.8.16

O facilitador

Se não tem obra que valha
uma agulha no palheiro
nem um fósforo na palha,
mas é useiro e vezeiro
no comércio de mesuras,
obséquios, cortesias
(um olho nas sinecuras
e o outro nas conezias)
e maquina veniagas
que permuta por alvíssaras,
cadeiras e vitualhas
e muitas coisas cediças,
quem será, em bom rigor,
este facilitador?

Domingos da Mota

[inédito]

14.8.16

Pleonasmo

O pobre diabo
dá-se muita
desimportância.

Domingos da Mota

[inédito]

12.8.16

Saldos

Saldam-se
promissórias, fundos,
livranças, acções,

promitentes vanglórias,
penduricalhos,
pregões.

Domingos da Mota

[revisto]

4.8.16

Quiçá

Avistar, ver ao longe, ver o mar,
abraçar com os olhos a montanha,
ver o mundo do alto e respirar
sem ficar assanhado, tal a sanha
contra quem vai cobrar, quiçá, taxar
a amplitude do espaço, o ar soalheiro
com vontade talvez de aliviar,
de baixar o imposto ao pardieiro,
pudesse abertamente confiar,
mas sem resvalar num atoleiro.

Domingos da Mota

[inédito]

3.8.16

O sobrolho

Tu que estás de férias, não te evadas
nem iludas os teus, se os tiveres;

regressa já, torna, vem para casa,
volta ao trabalho, logo que puderes:

o saldo orçamental pode ser mau,
sublinha o sobrolho da UTAO.

Domingos da Mota

[inédito]

31.7.16

Ponto de encontro

Eis o lugar,
o sítio, o ponto,
o ponto exacto
com rigor escolhido
como ponto
de encontro.
É um facto.
Mas
o desencontro
faz todo
o sentido.

Domingos da Mota

[inédito]

28.7.16

Sansão e Dalila

Fosse eu ministra, a sanção
não seria aplicada,
disse a Dalila ao Sansão
e o Sansão não disse nada.
Esperou, olhou pra ela,
para a Dalila dum jeito,
como se fosse a cadela
que lhe ferrasse no peito
os cabelos para dar
ao inimigo que andava
por ali a ameaçar
com a sanção que apurava.
Mas como não há sanção,
a Dalila está tão, tão...

Domingos da Mota

[inédito]

27.7.16

Um vinho e pêras

Posso ser coxo, mas não serei tanto
Como o Pêra Manca da notícia:
Um vinho e pêras, ó fatal ganância,
Adulterado, que pior malícia!

Domingos da Mota

[inédito]

14.7.16

Brexit

Sai,
mas fica
com um pé,
um pezinho
a balançar

pois esta
Europa
não é um cão
que ouse
ferrar

a quem está
com o pé
do lado 
de cá
do muro

ou do canal.
E assim 
é
ou será
o Brexit,

por muito
que
sobressalte:

um puro
whisky
de malte.


Domingos da Mota

[inédito]

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - SE VOSSA EXCELÊNCIA...

1.7.16

Múmia

Essa múmia apodíctica,
Malvada de sua graça,
Invectiva, regurgita,
Mostra os dentes, ameaça.

Domingos da Mota

[inédito]

12.6.16

Provérbio

Mandaste porque  querias
ou não querias que fosse
feito aquilo que pedias
que se fizesse? O mando,
por evidente que seja,
pode acabar em desmando
sem que o mandante preveja
as suas consequências,
se quem vai fazer a coisa
não percebe as exigências
ou não acata e até ousa
rebelar-se, dizer não,
negar-se a fazer o acto,
incitar à sedição,
tumultuar, ipso facto.

Domingos da Mota

[inédito]

29.5.16

Febre amarela

Febre amarela:
que febre será esta
que se espalha

e contamina a querela
sobre o futuro
da praga?

Domingos da Mota

[inédito]

7.5.16

Das inaugurações de túneis, pontes, escolas & quejandos

Não batam mais no ceguinho
Com manifesta amnésia:
Uma pedra no caminho
Não lhe perturba a parrésia.

Domingos da Mota

[inédito]

6.4.16

Papéis

Eu rio
tu choras
ele offshore

Domingos da Mota

4.4.16

O idiota

O idiota útil
o idiota portátil
o idiota dúctil
o idiota versátil
o idiota subtil
o idiota volátil
o idiota inútil
o idiota retráctil
o idiota boquirrota
o idiota fútil
o idiota zelota
o idiota útil
o idiota retro
com PIN na lapela -
e um largo espectro
de logro e balela

Domingos da Mota

[inédito]

21.3.16

O poema

O poema é como um peixe
que se liberta do anzol.
Mas há quem pesque -- e o deixe
mais brilhante que o sol.

Domingos da Mota

[inédito]

Bach Cantata BWV 147 10 - Chorale - Jesu bleibet meine Freude - Harnon...

10.3.16

Mas

Mas, oh quanto beija-mão
este laico presidente
leva a cabo, com sermão
e oração condizente!

Domingos da Mota

[inédito]

4.3.16

Ensaio sobre a "tristeza de gente"

Triste, mais triste que os tristes
Quem perante a falta de ética,
Arrazoa, segue, insiste
Numa postura patética.

Domingos da Mota

[inédito]

1.2.16

Desde já

Quem quiser sair que saia.
Mas se deixar um aviso,
seco que seja, à laia
de comentário conciso

que não precise de hábeis
hermenêuticas argutas
ou de ilações intragáveis
ou de cautelas astutas

sobre o desgosto que o trai,
por que motivo se escapa,
da razão por que se vai,
se não sair à socapa,

agradeço desde já,
mas prefiro tê-lo cá!

Domingos da Mota

[inédito]

28.1.16

Pois

Patriota? Pois, talvez
na pátria do seu umbigo,
moralista tanta vez,
sobretudo tão amigo
de não pagar os impostos
(paguem os outros por si),
e bolça fartos arrotos
na SIC, na TVI;
onde quer que lhe dão trela,
dá conselhos, invectiva,
o olho atento à gamela,
aos ganhos em perspectiva,
pois é rico, oh, riquíssimo
esse grande, grandessíssimo.

Domingos da Mota

[revisto]

24.1.16

Salvo erro

Nunca errou. E, salvo erro,
o seu engano maior,
com laivos de desespero,
de presunção ou pior,
tem a ver com a certeza
absoluta de si,
com a arrogante leveza
para dizer o que ouvi.
Se alguém julga o seu umbigo
o centro do universo,
o erro não está consigo,
mas distante e tão disperso
que também me cabe a mim,
salvo erro, porque sim.

Domingos da Mota

[inédito]

23.1.16

Reflexão

Não diz nada, reflecte
sobre o muito que foi dito:
olha e vê quanto topete;
e eu reparo e medito.

Domingos da Mota

[inédito]

17.1.16

Ode à marmita

Não dorme, dormita;
não come, petisca;
não anda, levita;
e prova e comisca;
e força a visita
e vai e arrisca
encher a marmita
que lambe e lambisca:
de porta em porta,
não beija, bajula,
abraça, conforta
do avô ao caçula,
pois nada o detém
até que Belém!

Domingos da Mota

[inédito]