2.12.08

VIVER NÃO É DEMAIS

Daqui, da planície dos telhados
quando a brisa duriense se atordoa
do gritar das andorinhas e pardais
no fim de tarde de Outono
eu digo que viver não é demais.


Desta lição das horas escoadas
por entre a fímbria de ilusões finais
o ar tingido, as casas encostadas,
vai pelo Douro abaixo o meu poema
enquanto eu sinto que viver não é demais.


Enquanto digo que viver é muito mais
passeia a tarde pela luz de Outono
enfim acalmo com as primeiras sombras
no mostrador do tempo nem os dias são iguais.


Fernando Morais

10.9.08

CANTO DE SOLIDARIEDADE A ERNESTO CARDENAL, PADRE E POETA DA NICARÁGUA E DO MUNDO

condenaram-te cardenal
foi o poder do dinheiro
tens novamente o madeiro
cujo peso conheces bem
condenaram-te cardenal
por seres o mensageiro
de quem no mundo nada tem


condenaram-te cardenal
ortega era companheiro
lutou pelo mesmo ideal
mas num golpe traiçoeiro
valeu-se da toga do mal
sorriu para o forasteiro
prostituiu-se ao capital


condenaram-te cardenal
com a cruel humilhação
pior que golpe de punhal
pior que as grades da prisão


condenaram-te cardenal
pena que não se repara
joão paulo também o fez
naquele turismo papal
o dedo na tua cara
era o dedo da estupidez
prepotência pontifical
falando em nome do burguês


condenaram-te cardenal
fizeram-te réu outra vez
quem da terra quer ser o sal
recebe em troca insensatez


condenaram-te cardenal
mas não há pena que dobre
o teu canto universal
poeta do cristo pobre
nascido na estrebaria
e não em palácio real
padre irmão da poesia
o manto dela te cobre
não a capa do cardeal


Júlio Saraiva



Poema colhido em http://www.luso-poemas.net/, e aqui publicado com a autorização do autor, jornalista e poeta brasileiro.


DM

9.9.08

Homenagens: PEDRO CASALDÁLIGA, O BISPO VERMELHO E POETA DE ARAGUAIA

«O motorista do ônibus não entendeu o português enrolado do homenzinho magro, calça de brim surrada, camiseta branca, e sandálias de couro. Estacionou o veículo na beira da estrada, para que o homenzinho descesse. E depois partiu. O homenzinho só havia pedido para urinar. O condutor não entendeu e o largou, tarde da noite, na escuridão da estrada. Este foi um episódio ocorrido com Dom Pedro Casaldáliga, missionário clareteano (da Congregação fundada por Santo Antônio Maria Claret), que havia acabado de ser sagrado bispo da miserável região de São Felix do Araguaia, até hoje conturbada por sangrentas lutas pela disputa da terra. Na época, fins da década de 1970, a situação era pior ainda: os órgãos de repressão do governo militar, instalado no Brasil em 1964, descobriram que ali estava sendo articulada a luta armada para pôr fim à ditadura. Naquela noite, Pedro Casaldáliga pediu abrigo na casa de um camponês, que ainda não o conhecia. Ao dizer que era bispo, o camponês, antes de lhe dar pousada, sorriu e disse, vendo-o naqueles trajes: "Se o senhor é bispo, eu sou o papa. Mas pode entrar." Pedro Casaldáliga juntou-se à luta do seu povo simples e massacrado. Escondeu guerrilheiros. Teve sua extradição pedida pelos latifundiários.
Recebeu advertências do Vaticano, que fingiu não entender. Foi jurado de morte diversas vezes. Hoje, aposentado, não retornou a Espanha, preferindo continuar no meio dos índios e posseiros, mesmo contra a vontade dos seus superiores.
O ritual da sua sagração episcopal foi diferente dos demais. Dispensou todas as pompas. Não deitou no tapete vermelho, mas sim numa esteira de vime, às margens do rio Araguaia. Em lugar da mitra, usou um chapéu de palha de pescadores. Em lugar do cajado episcopal, um par de remos. O anel foi enviado à mãe na Espanha e trocado por uma modesta aliança de casca de coco. Palácio? Como palácio, monsenhor optou por uma choupana idêntica a do povo local. Escreveu um diário, vários poemas, e é co-autor do texto da Missa do Vaqueiro, musicada pelo compositor Milton Nascimento. De sua obra de poeta, extraio este texto:


CANÇÃO DA FOICE E DO FEIXE


Com um calo por anel
monsenhor cortava arroz.
Monsenhor "martelo
e foice?"
Me chamarão subversivo.
E lhes direi: eu o sou.
Por meu povo em luta, vivo.
Com meu Povo em marcha vou.
Tenho fé de guerrilheiro
e amor de revolução.
E entre Evangelho e canção
sofro e digo o que quero.
Se escandalizo primeiro,
queimei o próprio coração
ao fogo desta Paixão,
cruz de seu mesmo Madeiro.
Incito à subversão
contra o Poder e o Dinheiro.
Quero subverter a Lei
que perverte ao Povo em grei
e ao Governo em carniceiro.
(Meu Pastor se faz Cordeiro
Servidor se fez meu Rei.)
Creio na Internacional
das frontes alevantadas
da voz de igual para igual
e das mãos enlaçadas...
E chamo a Ordem de mal
e ao Progresso de mentira.
Tenho menos paz que ira.
Tenho mais amor que paz.
...Creio na foice e no feixe
destas espigas caídas:
Creio nesta foice que avança
uma Morte em tantas vidas!
- sob este sol sem disfarce
e na comum esperança -
tão encurvada e tenaz!


Pedro Casaldáliga


Júlio Saraiva»


Texto de Júlio Saraiva e  poema do bispo e poeta Pedro Casaldáliga, publicados, por JS, no blogue: http://www.luso-poemas.net/, e republicados aqui com a sua autorização.

6.9.08

Da Sociedade

Cito: de Jornal de Notícias, de 06 de Setembro de 2008:


«Licença de parto só é possível com meio ano de descontos
Governo nega limitações da licença para as contratadas, mas não esclarece a forma de acederem aos subsídios


HELENA TEIXEIRA DA SILVA
helenasilva@jn.pt


Apesar de o Governo afirmar "que não existe qualquer circular que force as funcionárias públicas a optar entre manter o emprego ou os direitos sociais", o JN teve acesso a mais dois casos de docentes obrigadas a fazer essa opção na gravidez.» [...]


Perante a apresentação dos casos arrolados pelo JN, e o esclarecimento do Governo, nesta dialéctica, não haverá uma disfunção entre a teoria e a prática?
Não será melhor o Governo editar, em vez de um esclarecimento, um tratado de hermenêutica dos textos, das circulares, dos despachos, das portarias e dos decretos, etc.?


DM

5.9.08

Da Sociedade

Cito, de Jornal de Notícias, online, de 05 de Setembro de 2008:


«Contratadas lesadas por engravidar


Circular contraria incentivos à maternidade. Contratos de trabalho recusados em período de licença de parto.


01h00m  HELENA TEIXEIRA DA SILVA


No momento em que José Sócrates anunciava novos incentivos à maternidade, o Ministério das Finanças divulgava uma circular que limita o direito das mulheres a renovar contratos a prazo durante o período  de gozo de maternidade.» [...]


Uma no cravo, outra na ferradura!


DM

31.8.08

Ernesto Cardenal

Cito: de Jornal de Notícias de 31 de Agosto de 2008, Cultura, Literatura:
«Saramago apoia poeta perseguido pela justiça
O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal, de 83 anos, enfrenta actualmente a justiça da Nicarágua e o Governo do presidente Daniel Ortega, ao ter sido condenado por injuriar um empresário alemão na disputa de terras.
O intelectual nicaraguense, dissidente sandinista e considerado um dos mais importantes poetas vivos da América Latina, recebeu já o apoio de dezenas de escritores, entre os quais o português José Saramago, o chileno Antonio Skarmeta e o uruguaio Eduardo Galeano.
   "Ernesto Cardenal, um dos mais extraordinários homens que o sol aquece, foi vítima da má consciência de um Daniel Ortega indigno do seu próprio passado, incapaz agora de reconhecer a grandeza de alguém a quem até um Papa (João Paulo II), em vão, tentou humilhar" em 1983, escreveu Saramago. Numa alusão a Ortega, o escritor português acrescentou que "uma vez mais, uma revolução foi atraiçoada por dentro".
   Cardenal foi condenado, por um juiz de tendência sandinista, a pagar uma multa de 20.000 córdobas (pouco mais de mil dólares), sob a acusação de injuriar o empresário alemão Inmanuel Zerger.
   O poeta, que entretanto denunciou perante o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos, estar a ser vítima de perseguição, recusa acatar a sentença, que diz ser "injusta e ilegal" e uma "vingança" de Daniel Ortega por ele, Cardenal, ter sido recebido com honras durante a tomada de posse do presidente paraguaio Fernando Lugo, à qual o governante sandinista decidiu não assistir.
   Nascido em 20 de Janeiro de 1925 em Granada, Cardenal foi ordenado padre em 1965 e em 1979, com a chegada dos sandinistas ao poder, integrou a Junta do Governo como ministro da Cultura, entre 1979 e 1990.
   Cinco anos antes de sair, em  1985, foi suspenso "ad divinis" pelo Vaticano, que considerou incompatível a sua missão sacerdotal com o seu novo cargo político.»[...].


Suspenso "ad divinis" e perseguido "ad hominem", eis a «pedra no meio do caminho» do poeta, sacerdote e  Homem da Cultura.


Aqui  subscrevo o meu apoio a Ernesto Cardenal.




Domingos da Mota

28.8.08

«Sinais dos tempos»

Comentário tardio a  parte da crónica «Por outras palavras», de Manuel António Pina, no Jornal de Notícias de 25 de Agosto de 2008:


"Sinais dos tempos"


«O arminho é um pequeno animal (mede entre 15 e 30 centímetros e pesa pouco mais de 200 gramas) incluído no Anexo III da Convenção de Berna (espécie ameaçada, parcialmente protegida e sujeita a regulamentação especial). Para seu azar, seu tão grande azar, tem uma pele felpuda e bonita, que fica bem em adornos ricos como o "camuro" (gorro) e a mozela (estola) de veludo com que  Bento XVI, recuperando o luxo pré-tridentino, agora se exibe, em vistoso conjunto  com os seus famosos sapatos "Prada". O Papa está atento aos "sinais dos tempos", como prescreve o Vaticano II.»


Atento também aos sinais e aos tempos, ao hábito de burel e às sandálias de «el Poverello», e ao refinado diapasão do cronista, salmodio piamente:


Santa ostentação,
Santo luxo, tão bento,
Santa ecologia,


Rogai por nós.


Domingos da Mota

23.8.08

Toada do peixespanto

      Não, Àrtur,  se tenho dó
        é de mim, que, para ti,
        pelo que vi e não comi,
        um peixe nunca vem só...


        Alexandre O'Neill




Ouvi dizer que o durão,
se fosse peixe amestrado,
seria cherne / ou salmão
ou salmonete escalado:
peixe-barroso?, pimpão?,
peixe-frade acolitado?,
peixe-rato?, peixe-cão?
- No mar alto da ambição
de peixe-galo cantado...


Ouvi dizer que o durão,
se fosse peixe acossado,
seria solha / ou então
um carapau alimado:
peixe-diabo?, tritão
do peixe-gato escaldado?
Xaputa de boqueirão!
- Do tamboril ao cação,
até ferve o linguado...


Cuido porém que o durão,
esse peixe apregoado,
mais parece um lingueirão,
um safio refinado:
pata-roxa?, tubarão?,
agulhão dissimulado?
- De peixe-espada na mão,
eis o alto cortesão
do peixe-rei / do mercado...


Domingos da Mota

18.8.08

Dos espelhos

«Alberto João Jardim
Pres. Gov. Regional da Madeira


As diatribes estão-lhe no sangue. Às vezes é divertido, outras inoportuno, outras sai da racionalidade. Foi o que aconteceu anteontem. No comício da "rentrée" do "seu" PSD da Madeira, acusou o Governo de ser "fascista", "mafioso" e "ditatorial". O PSD nacional não comenta.»,


in Jornal de Notícias, de 18 de Agosto de 2008.


Apesar de ser contra muitas das «políticas» deste Governo que, a meu gosto, não são «de flor que se cheire», mas antes o fruto ou a consequência do escalracho neo-liberal que grassa pelo mundo, e também, de forma galopante, neste jardim à beira-mar, ao ler tais diatribes, ocorreu-me a figura, o reflexo do homem a ver-se ao espelho da «insustentável leveza» do próprio umbigo.


DM

15.8.08

Bestiário/1

Grandes tubarões:
fervilham, fervem nas águas
amassadas: exploram.

Agitam os cardumes
que perseguem, e apavoram
o peixe miúdo.

Tantas, tão hiantes as piranhas:
eléctricas, vorazes, espectrais,
no mundo feroz dos canibais.

Infestam. Abocanham-(se).
Alardeiam. Arreganham os dentes.
Banqueteiam-se.


Domingos da Mota

14.8.08

Teoria do caos

À atenção de físicos, matemáticos, economistas, cientistas sociais, e gestores da governança.


De Jornal de Notícias, 02 de Agosto de 2008:
«Apenas um euro por mês para apoiar reformada. [...] "Informa-se V. Ex.ª de que o requerimento do Complemento Solidário para Idosos tem início em 2008/03, no montante de 1.00 euro."».


Ora, perante este fartão, esta mão cheia de solidariedade,  não poderá o «efeito de borboleta», o simples bater de asas de um euro para os bolsos da respeitável senhora de 88 anos de idade, provocar um ciclone, um tufão, a falência da Segurança Social?


DM

11.8.08

Manifesto

Em louvor
do sacrossanto deus do Mercado,

do capitalismo galopante,
do ultra-neoliberalismo,
das transnacionais, multinacionais
e macro empresas
(e dos seus humílimos accionistas),
dos eixos do Bem e do Mal,
e do aquecimento global,
dos tufões, cataclismos, terramotos, maremotos,
da fome, da barbárie e de todas as guerras:
(santas, públicas, privadas, preventivas,
de conquista, de genocídio, de ocupação),
do petróleo, da energia nuclear,
pobre ou enriquecida, das  energias sujas,
limpas e renováveis,
dos recursos aquáticos,
marinhos, terrestres, aéreos e extra-terrestres,
em suma,

da Globalização
e, máxime, dos seus ditosos lucros,

as Potestades Mundiais

(santidades, imperadores,
sereníssimas majestades e altezas,
aristocratas de puro-sangue azul e de sangue
assim-assim, marajás, sultões,  mandarins,
vizires,  plutocratas, oligarcas, usurários,
banqueiros, especuladores financeiros,
cleptocatras,
latifundiários, nababos, terras-tenentes, capitães
da indústria, cabos-de-guerra, cardeais,
arcebispos, bispos, cónegos, priores, vigários,
abades e abadessas, excelências, eminências,
reverências, senhorias, luminárias,
eminências pardas e todas as sumidades
e suas excrescências,

e mesmo à revelia dos Povos e das Nações,


presidentes,
governos,
parlamentos, 
congressistas, governadores,
eurocratas, comissários, deputados,
embaixadores, ministros plenipotenciários, etc.),
no alto da sua de jure potência,
proclamam,

urbi et orbi,
de direito e de facto,

a partir daqui e de agora
(deste fatídico mês do Solstício de Verão
do ano bissexto de 2008, d.C.,
mês da Pedra no Sapato,
do Grão de Areia
na engrenagem dos Supremos Interesses):

dada a consabida Douta Ignorância
dos povos em geral,
e do povo em particular que teve a ousadia,
cometeu a soberana heresia de,
em referendo,
afirmar a sua negação
ao preclaro e subido
Tratado de Lisboa
que,
mais do que um Tratado,
é um hino à diplomacia,
à sabedoria, à filosofia, à lógica,
aos silogismos categóricos,
aos axiomas apodícticos, à teoria política,
à meridiana clareza
(palavra por palavra, vírgula por vírgula,
ponto por ponto, frase por frase,
com cláusulas, objecções, remissões,
excepções, denegações e outras dejecções),
no fundo, uma sinfonia plena
de fugas, fugato, adagio, allegro con brio,
largo-vivace, andante con moto,
finale: presto,
uma quase hierofania,
as Tábuas da Lei, o Texto da Promissão,

e decretam


(não vá o diabo voltar a tecê-las):
a proibição, o fim, a rasura, a anulação
de sondagens de opinião, de referendos
e de eleições gerais em todos os países.

OBRIGAM-SE,


hic et nunc,

os Altos Dirigentes dos arcos do Poder,
sentados à Mesa
do Orçamento dos Supremos Interesses
(lordes
e comuns, neo-talassas e republicanos
de botas-de-elástico, democratas
de cor de burro quando foge,
socialistas da boca para fora, trabalhistas
da centésima vaga, neo-socialistas
à tripa forra, sociais-democratas, mutatis
mutandis, populistas puros e duros,
neo-liberais, hiper-liberais, neo-conservadores,
democratas-cristãos novos e velhos,
com presunção e água benta,
de não há cristão que aguente,
neo-fascistas e quejandos),
a expurgar as suas Constituições
de todos os direitos, liberdades e garantias.

A partir daqui e de agora:
se qualquer povo sair
do Redil,
por rebeldia ou por ignara sabedoria
(e assim ameaçar, com um grão de areia que seja,
a roda inexorável dos Sumos Interesses),
à revelia desta 
NORMA IMPERATIVA,
assumirão os Seus Altos Dirigentes,
perante Nós e perante a História,
o ónus de, sem apelo nem agravo,

«Dissolver o povo
E eleger outro».

Em nome da tradição judaico-cristã,
se o povo eleito,
contaminado pelo espírito do lugar,
vier também a rebelar-se contra qualquer dos
Superiores Ditames,
volta-se a dissolver  o povo,
deixa-se o lugar em pousio,
e ponto final,
parágrafo.

Mais se
DECRETA,

de forma impositiva
(e como dizia o neo-pós-profeta):

o fim da História, da rosa-dos-ventos,
das ideologias, das utopias,
da direita e da esquerda
(e todos ao molho e fé em Deus),
mas, sobretudo,

o fim
da luta de classes
que, pragmaticamente,
passarão a ser duas,
e somente duas:

a de CIMA,
e a de baixo,

com quotas imutáveis:
0,001%, para a classe de CIMA,
e 99,999%, para a classe de baixo.

(Nos interstícios entre ambas
as classes sociais, poderá manter-se,
por tempo determinado, uma subclasse,
do tipo limbo ou purgatório,
nem carne nem peixe, entre o céu e o inferno,
onde cabem os testas-de-ferro, tiranetes,
mandatários, validos e valetes, assessores,
consultores, burocratas, fazedores de opinião,
louvaminheiros, lambe-botas, sicofantas,
puxa-sacos, paus-mandados, bacirrabos,
cães de fila e de guarda e de caça e de guerra
e sicários, capatazes, feitores, maiorais,
apoderados e outros que tais).

Em nome
da Riqueza das Nações,
do PIB,
do crescimento económico,
do défice,
do choque tecnológico, do simplex,
da coesão social, da justiça redistributiva,
da pós-moderna governança dos Estados,
na senda imparável do progresso sustentado
às arrecuas, aprofunda-se e alarga-se a douta
directiva do Conselho de Ministros do Emprego
e Assuntos Sociais da União Europeia,
que propõe que se eleve
de 48 para 60 ou 65 horas (ou mais),
o limite de semana laboral, e

DECRETA-SE
A REVOGAÇÃO
DO CALENDÁRIO GREGORIANIO.

A partir daqui e de agora,
e até ao fim do Mundo,
os dias passam a ter 25 horas;
os meses, 33 dias;
os anos, 13 meses;
e todos os anos serão neo-bissextos.
Todos os trabalhadores,
sem excepção, passarão a ser submetidos
a trabalhos forçados.
O horário de trabalho universal
passará a ser de 24 horas por dia
(com três intervalos de 10 minutos cada,
respectivamente,
para o mata-bicho, o jantar e a ceia).
Em prol dos elevados
índices de produtividade,
deverá conceder-se uma única pausa
diária de 69 segundos,
para as necessidades fisiológicas.
(As grávidas,
e os outros trabalhadores,
 com incontinência urinária ou fecal,
 devidamente comprovadas,
poderão, excepcionalmente,
 subdividir a pausa dos 69 segundos,
por três vezes/dia).
O descanso diário obrigatório passará a ser
 na vigésima quinta hora.
Em situações de graves dificuldades económicas
ou de necessidade
Superior do Mercado
o capataz de turno poderá coagir o trabalhador
a renunciar ao tempo de descanso obrigatório,
a troco de pagamento de uma hora extraordinária,
em espécie,
que deverá ser, a título de exemplo,
uma medalha de cortiça
(a creditar na carteira de acções do seu banco de horas).

De acordo com as boas práticas
da civilização judaico-cristã,
e se a norma não afectar
os Superiores Interesses do Mercado,
o descanso semanal continuará a ser
ao sétimo dia
(com os ajustes necessários
para quem professe outra crença ou religião).
Excluem-se do descanso semanal os trabalhadores
ateus, agnósticos e laicos.
Acabam todos os dias de férias, feriados e faltas.

Em louvor

do Sacrossanto Deus do Mercado,
e em nome dos Nossos Altissonantes
e Supremos Umbigos,
convoca-se
um Concílio Eclético
de todos os povos, nações, tribos
e religiões,
mono e politeístas,
com os seus eminentes sábios,
sacerdotes, teocratas, patriarcas,
hierocratas, budas, jeovás, heresiarcas,
xamãs, orixás, mães, pais, filhos
e filhas-de-santo, candomblés,
e de outras fontes e terreiros;
e de todos os calendários
(hindus, hebraico, chinês, ab urbe condita,
rúnico, islâmico e persa),
para as emergentes
sincronias e diacronias
com este imperioso
Choque de Civilização.

Em cumprimento
das leis anti-monopolistas,
e sob pena de acusação agravada
de enriquecimento sem causa,
todos os trabalhadores,
como neo-banqueiros,
detentores maioritários das acções
do capital-trabalho,
serão obrigados
a colocar os seus Bancos de Horas 
na Bolsa de Valores dos Objectos Descartáveis
para cotação, e taxação fiscal dos lucros
e das mais-valias acumuladas
(em caso de compra, venda, fusão,
OPA hostil ou despedimento).

Se, por razões imponderáveis do Mercado,
como ganância, usura, roubo flagrante, desregulação,
 qualquer das grandes empresas cotadas
 nas Bolsas de Valores
for ameaçada de falência,
obrigam-se os Estados
a solver essas empresas
com a distribuição dos prejuízos por todos
 os contribuintes,
mantendo os seus accionistas
os direitos aos sagrados  lucros
bem como às indemnizações a que houver direito.

A idade de reforma passará a ser aos 88 anos.
Os governos,
após Cimeira de Concertação Suprema,
poderão aprovar que os trabalhadores mais fiéis
«a dar ao rabo atrás do dono»,
se reformem aos 99 anos.
Melhor,
pelo seu elevado sentido de estar
ao serviço dos Superiores Interesses do Mercado,
 no primeiro dia inútil da reforma,
serão agraciados com a comenda da Ordem de
«qualquer coisa assim para estrumar os campos»;
e quando morrerem,
arcarão, tão-somente, com 98%
das despesas do funeral, com pompa
e circunstância, fanfarra e foguetes,
cabendo, em partes iguais,
ao Estado a que isto chegou
e a um Fundo Fiduciário dos Nababos
& Ociosos Permanentes,
o pagamento dos 2%, em falta.

Como medida cautelar,
atentos à Palavra do Senhor:
Mateus, 24: «É mais fácil passar um camelo
pelo fundo de uma agulha,
do que um rico entrar no Reino do Céu»,

o Conselho de Administração
dos Detentores & Guardiães do Sistema, SA,
aprova,
por maioria qualificada, criar, de raiz,
um Laboratório-Hospital de Investigação
Científica e Tecnológica,
do infinitamente grande ao infinitamente pequeno,
com os melhores cientistas, engenheiros
e cirurgiões das almas, neo-especialistas
em Teologia, Ontologia e Metafísica,
analistas da Transcendência

e anestesistas da Axiologia, da Ética, da Moral
e dos bons costumes,

para a descoberta, fabrico, comercialização e implantação,
 em tempo útil
(e a preço de extrema-unção),
no bloco operatório
das Altas Consciências,
por métodos não invasivos,
a cada uma
das almas privadas
da classe de CIMA,
de uma nano-bula sacramental
de perdão  e remissão de todos os pecados
e que alargue
o cu d'agulha
para a vida eterna,
salvo-conduto prudencial
de entrada triunfante
no Reino dos Céus.

A bem de tudo isto,
 as
SUPRA POTESTADES,

até ao fim dos Séculos,

até à Eternidade.




Domingos da Mota








Figurações

          água-forte em relevo




Era uma vez um país
embolado a navegar
no alto do seu nariz,
e à beira de naufragar.


Um país de tiranetes,
de santarrões no altar,
de barões, de baronetes,
de validos, de valetes
por aí a desfilar;


um país de figurões
carregados de negaças,
onde os galos e os capões,
a mando dos passarões,
arreganham ameaças;


um país de sectários,
de falsários, de falsetes,
de caciques, de sicários,
cães de fila, mercenários
e de espirra-canivetes;


um país de saltimbancos,
de palhaços, bailarinos,
de tartufos, e de tantos
morcegos e olhimancos
à caça de gambozinos;


um país de gente fina,
gente de fé, impoluta
que tresanda e peregrina
entre a vénia e a verrina
com a língua mais hirsuta.


E o país de virotes,
fura-vidas, fura-bolos,
de fariseus, de zelotes,
de volteios e pinotes
e chuva de molha tolos,


bruscamente acometido
pela febre e pela aragem,
perde o pé e o sentido:
entrega o oiro ao bandido:
e é fartar, vilanagem!


Um fartão de pesporrências,
destemperos, desconchavos,
de mordaças, de impudências,
e de pardas eminências
de um bando de patos-bravos.


Nesse país de opereta,
o regente, sem batuta,
segue a toque da trombeta,
dos fagotes, da veneta
de grandes filhos... / da pauta.


Era uma vez um país
levantado à beira-mar
a sacudir a cerviz
e com pernas para andar.


Domingos da Mota