25.12.11

Vinicius de Moraes - Poema de Natal



Com a devida vénia, um belo Poema de Natal de Vinícius de Moraes.

24.12.11

Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências

Com a devida vénia, o número duplo (19-20) da Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências;
já estão disponíveis os números 21 e 22.

23.12.11

A grande regressão « Leonardo Boff

Com a devida vénia, um texto de Ignacio Ramonet, colhido no blogue de Leonardo Boff:

A grande regressão « Leonardo Boff

11.12.11

Da "Conferência sobre Nada" de John Cage -- Tradução: Augusto de Campos



com a devida vénia, [Da "Conferência sobre Nada", de John Cage -- Tradução: Augusto de Campos], colhida na Revista Errática

5.12.11

Documentário sobre a exposição 'A Natureza-Morta na Europa'



com a devida vénia, um excelente documentário sobre a exposição "A Natureza-Morta na Europa", na Fundação Calouste Gulbenkian.

1.12.11

O ROMEIRO, D. JOÃO DE PORTUGAL

Regresso enfim,  de barba branca,
mirrado de piça e veleidades,
olho pisco, pêlo raro, perna manca,
em busca de que sal, de que saudades

que se manduquem em aberta mesa.
Vejo contudo que em má altura
cheguei à vela que esperava acesa
e não encontro, inexistente e escura.

Afinal onde estou, já que sem nome
o vento me levou a condição?
Não terei terra branda que me tome

e me leve aos infernos pela mão,
pois uma só pergunta me consome:
se não nasci porquê morrer então?

Pedro Tamen

Analogia e Dedos, Oceanos, Asa Editores, Outubro de 2006

20.11.11

Poema das Sete Faces


com a devida vénia, um poema de Carlos Drummond de Andrade, dito por Paulo Autran.

15.11.11

Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite





com a devida vénia, um poema de António Ramos Rosa, dito por Mário Viegas.

7.11.11

JARDIM ZOOLÓGICO

Apenas a alegria das crianças
o purifica de tanto mal.

António Osório

Planetário e Zoo dos Homens, Editorial Presença, Lisboa, 1990

3.11.11

OS OVOS D'OIRO

1


Comei os ovos.
A galinha vive.
Passeia em bibliotecas
e tasquinha
junto aos muros
de Tebas.
Galinha grega.
Arredondando os ovos
sobre o mar.
Sorvendo pelo bico
as gotas gregas.

Talassiana.

Pelo cu desta galinha
sai um ovo.
E sai a caca.

Ave pesada de mais
para Aristófanes.
Encheu o papo
com milho de Aristóteles.
Os seus ovos são d'oiro.

Com as asas castigadas
sobe aos deuses.
Perímetra
glutona
empoleirada nos restos
de colunas
que as turistas beijam
e o cão do tempo mija.

Os homens de camisas claras
estendem sob o sol
as palmas ressequidas:
mais um ovo.

Os homens indispostos
caminham para trás
pisam os séculos
procuram nos quintais
do tempo
nos poleiros
da história
a passagem trôpega
da galinha grega.

Uma galinha ausente
que dava pios d'alma
bicava nos arquétipos
e quando punha um ovo
ouvia-se em toda a Renascença.

Não sabemos porquê
galinha escrita
pequeno corpo
pondo em alvoroço
os fregueses dos mitos
não sabemos porquê
tu ainda chocas
ou dormes no regaço
de Montaigne.

Imensos velhos
d'óculos
que cuidam d'aviários
perseguem toda a casta
de animais
apuram raças novas
para voltarem a ti
galinha grega.

Cisca a galinha
em torno
das estátuas
eterna vamp
do mundo arqueológico.

Aphroditíssima.

O bico
uma batuta
para o seu silêncio.
O gládio
suspenso
de uma antiga ânfora.

Enxotada entre guerras
e alianças.
Disseminando penas
largando por descuido
um ovo em cada voo.

Galinha grega.


2


Áurea galinha
com sua crista em chamas
deixando estigmas
na poeira dos crentes.

Galinha empoleirada
nos profetas.
Criada pelos nobres
nos vastos e vetustos
vestíbulos da morte.

Galinha mais que d'ovos
feita d'oiro.
Alimentada a pérolas.
Cardíaca.
Polida. Quieta.
Aristocrata.

Quem te colou no bico
o teu latim?
A tua servidão
no choco?
Quem te abriu
ao meio
e te adorou?


3


Quem perdoou a esta galinha
os seus arroubos?
As suas gagas soluções
de circunstância?

De grão em grão
haveis colheita
papo bancário
e ovos platinados.

Dá pulos oceânicos
o bípede loquaz
pondo ovos
catastróficos
e levando no bico
o raminho
metálico
da paz.

Quem perdoou
a estas naves
nada galináceas
a estes ovos
blondos
da galinha gringa?

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

30.10.11

UM COELHO COMO REI DOS FANTASMAS

A dificuldade de pensar ao fim do dia,
quando uma sombra informe cobre o sol
e nada a não ser a luz permanece no teu pêlo --

havia o gato derramando o leite o dia todo,
gato gordo, língua vermelha, mente verde, leite branco,
e Agosto o mais pacífico dos meses.

Estar na relva, no tempo mais cheio de paz,
sem aquele monumento de gato,
o gato esquecido na lua;

e sentir que a luz é uma luz de coelho,
na qual tudo é para ti
e nada precisa de ser explicado;

assim não há nada em que pensar. Vem de si mesmo;
e o Este invade o Oeste e o Oeste precipita-se,
não importa. A relva está cheia,

cheia de ti próprio. As árvores em volta são para ti,
toda a imensidão da noite é para ti,
um eu que toca todas as margens,

tu tornas-te um eu que preenche os quatro cantos da noite,
o gato vermelho esconde-se no brilho do pêlo
e aí estás eriçado, eriçado,

cada vez mais e mais eriçado, negro como pedra  --
sentas-te com a tua cabeça como uma escultura no espaço
e o gatinho verde é um insecto na relva.

Wallace Stevens

(trad. Graça Braga)

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro 2005

21.10.11

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis


Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos


O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
           (assim assim)
escriturários
            (muitos)
intelectuais
            (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles


Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados


Ah o medo vai ter tudo
tudo


(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


                       *


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Sim
a ratos


Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

2.10.11

Conta de Pero Vaz de Caminha

O homem do Guarani tosse
e espirra constantemente, enquanto
serve os cimbalinos em chávena escaldada
ao dono da residencial Grande Rio
e à striper brasileira. Ela discute no seu
português com adoçante
a conta da electricidade, que no seu país
não entra no contrato.

Inês Lourenço

LOGROS CONSENTIDOS, & etc, Março de 2005

15.9.11

ABRAÃO

Propedêutico, profiláctico.
Prepúcio.
Abraão tinha doutrina.
Antes Confúcio.

Pedro Mexia

Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

1.9.11

FERMENTO

É uma partícula. Desejamos que se torne maior, atravessada 
pelo ar aquecido. Havemos de recebê-la. Ela está mais perto
do que se multiplica para que se encontre a unidade,
aquele espaço em que o pão se abre em direcção a tudo
o que principiamos a ter. A sua forma é simples. Há quem se aproxime
um pouco mais para conhecer depois qual seria o gosto
dessas sementes que ficam abandonadas na terra revolvida
por uma nova estação. Tudo isto é dela. Continuamos atentos
até se reconhecer o que talvez se assemelhe à mais simples cor
da ausência, ao lugar vazio que permanece no espírito
como se fosse uma pergunta. O pão, na mesa, é a única resposta.

Fernando Guimarães

As Raízes Diferentes, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Junho de 2011

8.8.11

Han Shan [Tradução de António Graça Abreu]

86

O usurário empilhando riqueza
tal como a coruja alimentando as crias.
As crias crescem e devoram a mãe,
muitos bens acabam por engolir quem os tem.
Distribuídos em redor, crescem as bênçãos,
aferrolhados em casa, sobrevêm calamidades.
Não há bens, não há calamidades,
melhor agitar as asas azuis nas nuvens.

Han Shan

Di Versos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009

3.8.11

UM FIO SOLTO

                             para o Jorge Roque


Encontrá-lo aí mesmo, como se
pendurado no vazio. Desenredá-lo levemente
e puxar, procurando aquele ponto de tensão
sem, no entanto, o encontrar. Puxar mais e
mais, fervorosamente. Daí a nada
mais parece que é o fio que te puxa a ti.
E puxa, horrorizando-te, enquanto
imaginas que costura do teu mundo
agora se descose.

Diogo Vaz Pinto

NERVO, Averno, 2011

20.7.11

IRREDENTOS

Rasgam o ar de todos os dias e, como fungos, emergem, do
inferno, corpos répteis que abrem e fecham, a vida e a morte.
Por vezes, não há alquimia, nem saber, nem amor, apenas um
patíbulo. Por vezes,  não há prólogo possível à nossa história.
Somente a sombra do tempo se passeia.

Mário Rui de Oliveira

O VENTO DA NOITE, Assírio & Alvim, Março de 2002

17.7.11

AS VACAS TRESMALHADAS

As vacas tresmalhadas pelo asfalto
da cidade, fazem fugir quem passa.
Amarelo... Vermelho! Um atravessa.
É apanhada, seco, dá um salto,

desentranha um mugido e, abatida,
põe nos olhos mansíssimos a vida.
Que pascigo escolheste, amável bicho?
Se não fora o olhar, já eras lixo.

Vaca malhada tresmalhada, vaca
de leite em sangue, atormentado nó
pulsando no asfalto, agora saca
dos missérrimos bofes o seu muuuu

derradeiro. Já sem dor ou protesto,
é da cidade a vaca mais um resto.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

12.7.11

[Depois há uns tipos simpáticos]

Depois há uns tipos simpáticos
que se põem assim como que de lado,
hieroglificamente a assistir
ao espectáculo do espectáculo

dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa
cheia de conjecturas e trans-
versalidades para a benemerência
do raquítico pensamento nacional.

Paulo da Costa Domingos

AVERBAMENTO, & etc, 2011

6.7.11

SALDO DO DIA

Saldo do dia, o poema:
o deve e o haver, o peso, o custo
e tudo o mais que não fica na memória.

É no meio da noite
e dos improváveis sonhos.

Luís Filipe Castro Mendes

Lendas da Índia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2011

2.7.11

ROLETA RUSSA

Não quero lamentar-me nem celebrar a vida;
desconheço ainda quem é quem desta vez.
Posso esperar tranquilo com a frágil paciência
daquele que, passadas as primeiras horas da insónia,
diz a si mesmo que não importa dormir três horas ou nenhuma,
não faz diferença
(penso com a tranquilidade daquele que espera a bala).

Mariano Peyrou

O DISCURSO OPCIONAL OBRIGATÓRIO, Tradução de Manuel de Freitas, Prefácio de José Ángel Cilleruelo, Averno, Novembro de 2009

9.6.11

"Dedicatórias a Camões"


                                 Divulgação a partir da livraria Poetria
                                       www.livrariapoetria.com

4.6.11

QUEM É O TEU INIMIGO?

O que tem fome e te rouba
O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
Do teu ladrão que nunca teve fome.

Bertolt Brecht

Poemas, Tradução (com a colaboração de Sylvie Deswarte), Selecção, Estudos e Notas de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lda., Lisboa


14.5.11

TROCAR DE SANGUE

Os altares do sacrifício estão sempre acesos.
Somos o teu gado, Senhor.
Às vezes ordenas que suspendamos a mão sobre o filho.
A faca no ar perdeu o peso?
Agradecemos esta vez como se fosse sempre
mas deixamos o gume apontado ao coração dos homens.
Troca-se filho por cordeiro, troca-se de sangue
como se troca a camisa.
Um homem está sentado à porta da taverna
entre o vinho e o sol. Tem os dentes podres
cheios de buracos. A respiração passa pelas gengivas.
Também elas em sangue e vinho.

Rosa Alice Branco

GADO DO SENHOR, & etc, 2011



Manuel António Pina ganha prémio Camões - Cultura - PUBLICO.PT

Manuel António Pina ganha prémio Camões - Cultura - PUBLICO.PT:

Com a devida vénia, aqui lhe deixo os meus parabéns por este prémio mais que merecido.

13.5.11

"Onde sinto meu sangue é na poesia" - JN

"Onde sinto meu sangue é na poesia" - JN:

com a devida vénia, e os meus parabéns para Manuel António Pina, um dos maiores poetas vivos da nossa língua.

8.5.11

Memorando da Troika – Em Português | Aventar

Memorando da Troika – Em Português | Aventar:

Com a devida vénia, aqui deixo a ligação para o blogue Aventar que fez um verdadeiro serviço público ao traduzir para português o memorando da Troika.

4.5.11

[Onde há pessoas]

Onde há pessoas
Há moscas
E budas

Issa Kobayashi

PRIMEIRA NEVE [haikus], versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2002

28.4.11

As elites

Com a devida vénia, aqui deixo a ligação para um excelente texto do escritor J. Rentes de Carvalho, sobre as nossas elites, publicado no seu blogue.

TEMPO CONTADO: As elites

16.4.11

A queda do governo

isto está tão bom
que tanto faz


pois é
o governo anterior não fez
já não há que pôr no prato
já não há que pôr no prego
combater o desemprego?
mas se o anterior não fez
pelo menos é o que este diz


isto está tão mau
que tanto faz o que se diz
que tanto faz quem fez
o governo que aí vem
é o futuro em marcha atrás
é o passado outra vez
é o anda nem desanda
já não há que pôr no prego
vou virar o bico ao prato
está a subir o desemprego
e a estalar o desacato
bem vês
ninguém põe os pontos nos iis
tanto faz o que se diz
tanto faz o que se fez
o governo caiu ontem
perco a mulher outra vez
queremos medidas de fundo
e um prego
e um prato
um pensamento profundo
um ministro embalsamado
um chouriço, um presunto
um doido bem penteado
e um careca varrido.
o que se faz
o que se diz
que o governo não fez
nem hoje nem há um mês
oh!, mas não vás
olha-me ali pr'aqueles cus
o quê? Tanto te faz?
ai o governo quer bis?
ora bolas! Mas bem vês
não há mas nem meio mas
ainda perco o emprego
hei-de comer-te no prato
hás-de te espetar no prego
ora mostra lá o umbigo
para quê? Isso é comigo
espera-me ali no café
espera-me no lá-de-lá
não te esqueças vai votar
neste que diz que fez
naquele que diz que faz
no outro que faz que diz
agarra-te a uma voz
vai até ao infinito
agarra-te a um pau de giz
come chouriço e presunto
olha a queda do governo
olha o tombo do defunto
canta lá uma cantiga
grândolavilamorena


João Habitualmente


DE MINHA MÁQUINA COM TEU CORPO, Cadernos de Campo Alegre, Fundação Ciência e Desenvolvimento, Novembro de 2010

9.4.11

revolta

respira, verbo infinito
anima a força dormida
que eu tenho retido um grito
e acesa uma ferida

que eu tenho um lápis de fogo
para gravar o preceito
respira, sintagma novo
abre as comportas ao peito

assume o signo humilhado
renuncia ao eufemismo
do dicionário castrado
do castrador catecismo

respira o feno e a seiva
o silvestre aroma de pinho
o quente bafo da leiva
o denso vapor do vinho

respira, luso idioma
esta lufada de vida
que todo o sono é sintoma
de lenta morte morrida

Cláudio Lima

ITINERÂNCIAS, Edição Opera Omnia, Guimarães, Outubro de 2010

2.4.11

SORRATEIRA

É torcer para não fugir
Um estalo
Foi -
Seria

Thiago Ponce de Moraes

ANTOLOGIA DE POESIA BRASILEIRA DO INÍCIO DO TERCEIRO MILÉNIO dezoito poetas da novíssima geração (selecção e organização de Caudio Daniel), 7 Dias 6 Noites - Editores Unipessoal, Lda., e editora exodus, Fevereiro de 2008

26.3.11

RESTAURANTE CASA DA ÍNDIA

uma pessoa tem por vezes de regressar
da Índia taciturno

iluminado só pelo último cigarro

Miguel-Manso

Agio 1, Revista de Literatura, Artefacto, Lisboa, Fevereiro 2011

18.3.11

CCB - DIA MUNDIAL DA POESIA

Um bom programa no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para os amadores e amantes da poesia, no próximo domingo:

CCB - DIA MUNDIAL DA POESIA

5.3.11

11. ALGUÉM DO PÚBLICO:

As coisas que pensaste
são coisas que viveste,
herói vivo ou traste?
sabes norte ou leste
coisas de geografia,
mas não fotografia
toda negra de peste
bubónica, asiática,
mais teórica que prática?

Pedro Tamen

Um Teatro às Escuras, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2011

27.2.11

23.2.11

Correntes d'Escritas 2011 — Portal da CMPV

O livro do sapateiro, de Pedro Tamen, publicado pelas edições Dom Quixote,
venceu o Prémio Literário Correntes d'Escritas 2011 — Portal da CMPV.
Parabéns ao Poeta.
(Já tive o prazer de publicar no blogue dois poemas deste excelente livro).

20.2.11

Mudança

O Inverno não dura sempre
névoa da nossa desilusão
Desce à terra nuvem que vogas
sobre a aridez da mentira
mil metros acima do chão
Abre-te ao nosso desejo
deixa florir tua água de mudança
nesta cidade em que tudo está à venda
e se pisam os dedos do mais fraco
e a sua dor
Trago na ponta da língua a indignação
e na mala a tiracolo uma carta
sem verdades seguras mas com esperança
num outro Abril
com plantas de luz
para ficarem

                                                                      2006

Urbano Tavares Rodrigues

Horas de Vidro, [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011

9.2.11

ENFIM

Essa cara cor de beco sem saída,
sorriso de apagar quarenta velas,
o nariz em agonia - não te canses.
A justiça, o remoinho da beleza,
a liberdade são paixões impopulares,
desaprovadas pela gorda humanidade.

Já sabias. Não te queixes. Colhe as favas,
as medonhas, do momento. Podes sempre
cozinhá-las com temperos escolhidos.
Sabe a pouco? Paciência. Satisfaz-te
com a fome e compreende: o proveito
do banquete é estudar os comensais.

José Miguel Silva

Erros Individuais, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Novembro de 2010

4.2.11

24.1.11

ELOGIO DA DIALÉCTICA

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o
                                                                              meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

Bertolt Brecht

Poemas, Selecção e estudo de Arnaldo Saraiva, Editorial  Presença, Lisboa

16.1.11

AS UNHAS

Sim, as unhas. Único órgão humano
que merece ser cantado no poema,
ele mesmo uma espécie de unha, laminar.
Garras ou pétalas,
precisam de corte e medida certa,
insistindo, depois do fim
da carne (que guarneceram toda uma vida),
em crescer para nada.
Últimas, mínimas transparências
fibrosas e amareladas
- pelos muitos cigarros. E
ainda se riem da morte,
já no caixão, sinal
de força sob a irremediável fraqueza humana.
Espigões quebradiços
com que ferimos o chumbo,
esse coração que Conrad disse um dia ser das trevas.

Luís Filipe Parrado

revista criatura, N.º 5 . OUTUBRO . 2010

10.1.11

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

OBRAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007

1.1.11

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Fernando Assis Pacheco

Variações em Sousa, Posfácio por Gustavo Rubim, Angelus Novus, Coimbra
e Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2004