26/08/2012

declaração de rendimentos

no meio de tanta incerteza. "é a prosa da
vida que faz falta a muita gente". sentença de escritor.
roubam-te a esperança. o fundo olhar da paixão.
               chegam-se a ti com
um fósforo. e querem levar
tudo. a troco de um esgar. cotado em bolsa.
               querem vampirizar o ar que
respiras. cuida. meu amor. cuida da prosa.
do vagaroso espreguiçar da palavra. leva-a.
                no cesto da fruta. antes
que apodreça na casca endividada.
querem que os teus olhos. calem. as fogueiras. a alegria.
                o sol. que te
venderam. como só teu. e agora. cobram juros.
porque existe. porque sim. é preciso cortar em tudo. dizem.
                porque o
sol também é um assalariado.
e a luz que lhe assiste. (à excepção dos senhores
                que lhe sugaram a
energia. toda. renovável). tem custos.
umas manhãs às escuras. ou. uns poentes apagados.
                consolidam as finanças.
sabes amor. estamos na boca da turbina. de assépticos.
                predadores. cuida amor.
guarda a palavra. semeia-a no ventre. inventa-a.
                na dança silenciosa
dos teus lábios.
a palavra. em prosa serena. que ainda.
não paga IVA. se já te arrancaram o fôlego.
                para pagar os juros da
dívida. salva. a imaginação que (ainda) não é tributada.

Alberto Serra

morrer de vagar, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2012

23/08/2012

NOVA

grita
de modo
a
retirares
de
cada
sopro

uma semente.

João Silveira

Agio, Revista de Literatura, Fevereiro 2011, Edição Artefacto, Lisboa

18/08/2012

O MORTO: SUA ASTRONOMIA

A astronomia do morto é um grito
sem resposta. Necessita de um computador
que lhe diga como descer da constelação:
alfabetos escadas da dor. Os olhos entendem sem ouvir

as suas equações do movimento: cinemáticas!
Quanto a mim bastava-lhe a tristeza: peso
cadente das estrelas e os hieroglifos eternos
das esquinas da história e da histeria.

Rancor enxertado por decretos e votos e hinos.
É terrível ser homem moribundo. A morte
levanta a sua constelação para que eu morra.
Nem há mesmo outra astronomia.

Alexandre Pinheiro Torres

A Flor Evaporada, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984

15/08/2012

[A mentira que fingem]

A mentira que fingem
é verdade.

A submissão
corrompe. Não nasceram
ainda.
Poderão nascer
mais tarde
tão adultos de aspecto?

Egito Gonçalves

O FÓSFORO NA PALHA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1970

14/08/2012

O ENFORCADO

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, 5.ª Edição, Lisboa, Maio de 2007

12/08/2012

o só

Na longa alameda a luz aos pedaços cai
mole do alto dos postes. Ele olha.

Para que não doa, apenas olha.
E não dói.

Eucanaã Ferraz

Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro de 2009

11/08/2012

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012