25.11.12

Discurso do Presidente do Uruguai, José Pepe Mujica na Rio+20



Em vez do «silêncios de ouro» de alguns, um notável discurso do Presidente do Uruguai.

24.11.12

ESPANTA-ESPÍRITOS

Amanhã tudo será pior
ainda, eu sei: o hábito, a inércia,
o sem remédio da vida - tão pouco
haverá a salvar.

Por toda a cidade os desconhecidos
subirão outro degrau para o escuro
da noite, e a memória será talvez
um remorso:

aquela manhã de sol
na varanda, o espanta-espíritos
com peixes de alumínio num rosário
de contas profanas.

Ainda o tens? Ainda canta,
de madrugada, se o vento sopra
do mar?

Não importa. Foi sempre de menos
o muito que pedimos

e a parte que tivemos.

Rui Pires Cabral

CAPITAIS DA SOLIDÃO, Edição Teatro de Vila Real, Outubro, 2006

19.11.12

Mil Novecentos e Noventa e Um

Velhas coisas são as que guardamos
no sótão
e não queremos devolver à procedência,

uma vara de garrafas vazias,
revistas esfarrapadas,
cartões de visita,
um par de sapatos de verniz,
quase novos,
a que se junta
uma carteira gasta,
de senhora,
um manequim sem cabeça,
uma panela furada,
o berbequim.

Pena é que os furos possíveis
não caibam já no cinto,
e a dentadura
não nos caiba na boca.

Presa a língua à trave que suporta o telhado
e as palavras disponíveis
para abate,
teríamos, por fim,
acantonado o silêncio,

o desusado silêncio
do sótão imperturbado.

Amadeu Baptista

açougue, &etc, Lisboa, Junho de 2012

18.11.12

MATEUS, 26, 26

Tomai, este é o meu corpo:
formas e símbolos.

Fora de mim, o meu reino
desmembra-se dentro de mim.

E o que fala falta-me
dentro do coração.

E estou sozinho fora de mim
como um coração fora de mim.

Manuel António Pina

POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2001

15.11.12

[O valor das coisas]

O valor das coisas
não está tanto nelas
como no valor que lhes atribuímos
Daí a nossa incerteza
mas também a margem
da nossa liberdade

António Ramos Rosa

Em torno do imponderável, Editora Licorne, Lisboa, Outubro de MMXII

13.11.12

Greve

"greve (1962)", de Augusto de Campos

P.S.: Amanhã este blogue vai fazer greve.

11.11.12

[O poeta carreirista]

O poeta carreirista
está sempre a morrer nos poemas
de cancro do pulmão ou cirrose hepática
mas na verdade cuida da sua obra (e do respectivo autor)
data-a e arquiva-a minuciosamente
trava mesmo amizade com uma bibliotecária
que o auxilia em bräille
não vá acontecer-lhe
como a Camilo
frequenta o ginásio,
masca Trident Senses
e milita nos partidos certos.
O poeta carreirista já nasceu poeta
foi bem orientado desde pequeno
inscrevendo-se na Associação Portuguesa de Autores
mesmo sem obra publicada
não fosse alguém roubar-lhe a ideia
dorme com um olho aberto outro fechado
- nos poemas lê-se insónia -
e namora rapariga letrada
embora aos 35 sofra uma crise de orientação sexual
e aos 40 tente uma escrita erótica mais abrangente
a manquejar Sena e a farejar alguns espanhóis.
O poeta carreirista não bebe cerveja
mas vinho tinto do Alentejo
abre às vezes excepções e acompanha-a com
tremoços e caracóis.
O poeta carreirista vai a tudo
rádio, TV e revistas,
coquetterie fina
e instala-se, de preferência, na capital.

Ana Paula Inácio

2010-2011, Averno, Junho de 2011

4.11.12

[Porque o poema é sempre contra o vómito]

Porque o poema é sempre contra o vómito.
Porque o poema é sempre, SOBRETUDO,
contra engolir o vómito.

Vasco Gato

Omertà, Quasi Edições, Março 2007