19/11/2012

Mil Novecentos e Noventa e Um

Velhas coisas são as que guardamos
no sótão
e não queremos devolver à procedência,

uma vara de garrafas vazias,
revistas esfarrapadas,
cartões de visita,
um par de sapatos de verniz,
quase novos,
a que se junta
uma carteira gasta,
de senhora,
um manequim sem cabeça,
uma panela furada,
o berbequim.

Pena é que os furos possíveis
não caibam já no cinto,
e a dentadura
não nos caiba na boca.

Presa a língua à trave que suporta o telhado
e as palavras disponíveis
para abate,
teríamos, por fim,
acantonado o silêncio,

o desusado silêncio
do sótão imperturbado.

Amadeu Baptista

açougue, &etc, Lisboa, Junho de 2012

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