26.1.26

motejo

o homem 
diz-se cristão:

ajoelha-se e reza
com as mãos em oração.

repica o sino:
dlim!

mas ferozmente despreza
a quem Cristo deu a mão.


toque a rebate:
dlão!


Domingos da Mota

16.1.26

o idiota

o idiota maiúsculo
o idiota minúsculo
o idiota evidente
o idiota somente
o idiota febril 
o idiota frívolo 
o idiota hostil
o idiota passivo
o idiota frenético
o idiota benquisto
o idiota maléfico
o idiota sinistro 
o idiota irascível
o idiota verdugo
o idiota sensível
o idiota & tudo


© Domingos da Mota



15.1.26

Do tardo-fascismo

Com aura de redentor,
de salvador da nação,
um serôdio seguidor
do de Santa Comba Dão

anda à solta no país
(não é Dom Sebastião)
e arrancará p'la raiz
a liberdade, se não

se enfrentar sem mas, a sério,
o torvo neofascista,
lambe-botas do império
com ar de salazarista.


Domingos da Mota

[revisto]

12.1.26

Epigrama cautelar

Cautela com os velhacos:
fracos com os fortes;
fortes com os fracos.

© Domingos da Mota

11.1.26

Louvaminheiro

De sorriso manso
e louvaminheiro
faz de ti tanso
o embusteiro.

Domingos da Mota

9.1.26

Com a pose de Messias

Com a pose de Messias,
promessas de salvador,
quantos meses, quantos dias,
quantos banhos de água fria
até cair do andor?


Domingos da Mota

Pequeno tratado de comércio

Trocam o santo-e-senha,
cortesias e louvores -
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores.


Domingos da Mota

6.1.26

O facilitador

Mostrará obra que valha
uma agulha no palheiro,
olhando os rabos-de-palha,
quem sendo useiro e vezeiro
no comércio de mesuras,
obséquios, cortesias,
um olho nas sinecuras
e outro nas conezias
em troca de veniagas
que permuta por alvíssaras,
cadeiras e vitualhas,
com a máscara postiça,
ou será, em bom rigor,
tão-só facilitador?


Domingos da Mota

4.1.26

4.12.25

Ecos da campanha

Com o dom da ubiquidade
do centrão para a direita,
onde enraíza a verdade,
com que máscara se enfeita?


Domingos da Mota

22.11.25

Independente

De quem dependes,
independente?
A quem te vendes
veladamente?

© Domingos da Mota

17.10.25

António Borges Coelho (1928-2025)


 Pesar, muito pesar!

(fotografia colhida na net)

4.9.25

PQP



     (...) Não te sentes feliz
     se o povo reza livremente o terço no país
     e são muito cristãos os nossos governantes?

     Ruy Belo



Desde o berço,
Vai à missa,
Reza o terço,

Não pragueja
(Como manda
A madre igreja).

Só diz, chiça!
Irra! Apre!
Mesmo que

A PQP

Entre
Dentes
Lhe escape.


© Domingos da Mota

24.8.25

Maestro José Luís Borges Coelho (1940-2025)


Pesar. Muito pesar!
              
                                         (Fotografia de Egídio Santos)
 

13.8.25

Isto não é um haiku

oh, anda ver
o petróleo verde
a arder


Domingos da Mota

10.8.25

BILHETE-POSTAL NEGRO

I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012

3.7.25

Ponto final, parágrafo

A morte não bate à porta,
acomete, não avisa
e, sem mesuras, fatal,
dita o ponto final.

O parágrafo seguinte
serão outros a escrevê-lo
com mais ou menos desvelo,
com mais ou menos requinte.


© Domingos da Mota

13.6.25

LITANIA

     É grande o deus da guerra, e é seu reino
     Um campo como milhares a apodrecer.

     Stephen Crane



E a guerra,
a besta imunda desenfreada,
feroz, mais atroz que mil invernos

queima e devasta e devora
os próprios filhos que afunda
no mais fundo dos infernos


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

24.4.25

Basta, bonda!

Não me vou achegar nem sequer dar-me 
com quem chega a tal ponto: basta, bonda!
Abundam por aí, querem guiar-te,
e levantam o facho e vão na onda

e ameaçam nas praças e avenidas 
e difundem o eco nas pantalhas
(a saudação romana reaviva 
o sonho celerado de canalhas).

À turba que destila ódio e fel, 
movida pela cega obsessão
contra o outro, o diferente, o de fora,

acenam com o pão, 
o vinho e o mel
(ocultando a pesada mão de ferro 
onde quer que dominem, como outrora).

© Domingos da Mota

24.2.25

[Quem apadrinha e faz coro]

Quem apadrinha e faz coro

com as toadas de ódio,

postergando, sem decoro,

que se desate o nó górdio?


Domingos da Mota

19.2.25

Negociações de paz

Enquanto uns partem

pedra, outros projectam

mais pedregulhos


Domingos da Mota

9.2.25

Receita para fazer um candidato a presidente

Pega-se num político
de discurso redondo:
dá-se-lhe espaço de
comentário na televisão

(com jornalista ao lado 
ou tele ponto em frente)
de sorriso na lapela:
semanalmente

Domingos da Mota

(a partir do texto "Telepresidentes", de Carlos Matos Gomes, na sua página do Facebook, 08.02.2025)


19.1.25

sonhei

sonhei
que um fogo vindo do céu
devastava a América.

o homem sonha.
se deus quiser
a obra nasce.

Alberto Pimenta


QUE LAREIRAS NA FLORESTA [de as moscas de pégaso], 7 nós, Porto, Janeiro de 2010

31.12.24

Adília Lopes (1960-2024)

Tenho uma vida
a viver
e uma morte
a morrer


Adília Lopes



LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA
, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006

8.12.24

Avó

minha santíssima avó
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação

sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo

compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada

nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos

quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão

sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra

Zbigniew Herbert

POESIA QUASE TODA (1956-1998)
, Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024