8.11.10

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

3.11.10

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

(...)

A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se,
a ciência columbófila ressente-se por esse condicionamento,
eiva-se de sinecuras e compadrios,
especializa-se em apreciações,
distingue-se entre os méritos e os desméritos
por simonia,
favorecimentos,
invejas comezinhas

(...)

Amadeu Baptista

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO, &etc, Setembro de  2010

1.11.10

FAMÍLIA VENDE TUDO

família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado

Angélica Freitas

A poesia andando: treze poetas no Brasil, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2008

31.10.10

Outubro

Formigas de asas em revoada:
concerto para enforcados.

Luís Serra

Brinquedos de Latão e Sarampo, Lisboa, Apenas Livros, seleccionado para RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março 2010

13.10.10

ROSAS DO DESERTO

Quem disse que as pedras
não podem
florir?

Jorge de Sousa Braga

FOGO SOBRE FOGO, Fenda Edições, Lda., 1998

9.10.10

O MORCEGO

O morcego é pardo com asas pregueadas
como algo posto de lado,
nem uma canção perpassa nos seus lábios,
ou algo perceptível.

O seu pequeno chapéu bizarramente fendido
descreve no ar
um arco de certo modo inescrutável -
enlevado filósofo!

Delegado de que firmamento
de que astuta residência,
empossado com que malevolência,
auspiciosamente retirado.

Ao seu destro criador
imputa não menos louvor;
beneficente podes acreditar
o seu excêntrico ar.

Emily Dickinson

(trad. Jorge Sousa Braga)

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro 2005

7.10.10

O CÃO FIEL

Era um cão fiel...
foi a dar ao rabo atrás do dono
até à oliveira em que aquele
o enforcou com arame.

Joaquim Namorado

A POESIA NECESSÁRIA, Cancioneiro Vértice, Coimbra, 1966

5.10.10

PÃO PARA A BOCA

Livros
e doce de amora - o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

Teresa M. G. Jardim

JOGOS RADICAIS, Assírio & Alvim, Julho 2010

3.10.10

[Depois de nós, não é certamente o dilúvio]

Depois de nós, não é certamente o dilúvio,
e tão-pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima
no Reino da Justiça, com as sua quatro estações, será
temperado, de modo que um colérico, um melancólico,
um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos
de três em três meses cada. Do ponto de vista duma enciclopédia,
é muito. Embora, sem dúvida,
a configuração das nuvens, os caprichos da temperatura
possam confundir um reformador. Porém, o deus
do comércio apenas se dilicia com a procura de flanelas,
guarda-chuvas ingleses, sobretudos forrados.
Os seus inimigos mais ferozes são as meias ponteadas
e os casacos virados. Aparentemente, a chuva lá fora
advoga precisamente esta distintamente frugal
abordagem à paisagem, e mais geralmente, a toda a criação.
Mas porque está ausente da Constituição a palavra "chuva"?
Nela não se fala nem uma só vez
de barómetros ou, já agora, de quem quer
que, empoleirado num banco, com uma bola de lã
de vicunha na mão, como um qualquer Alcibíades nu,
passa a noite a virar as páginas duma revista de modas
nos vestiários do Século de Ouro.

          1994

Iosif Brodskii

Paisagem com inundação, Introdução e tradução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2001

29.9.10

PEACE / PAZ

Perched upon the muzzle of a cannon
A yellow butterfly is slowly opening and shutting its wings.

*

Pendurada no focinho de um canhão
Uma borboleta amarela abre e fecha lentamente suas asas.

Amy Lowell

com a tradução de

Miguel Martins

Telhados de Vidro, N.º 14 . Setembro . 2010

22.9.10

Ciberescritas » Ferreira Gullar: fica o não dito por dito

Com a devida vénia, deixo aqui a ligação para uma excelente entrevista da jornalista Isabel Coutinho ao Poeta Ferreira Gullar: Ciberescritas » Ferreira Gullar: fica o não dito por dito

18.9.10

[Um sulco, um só soluço, um latejar,]

9.


Um sulco, um só soluço, um latejar,
um lenço de caruma sobre a areia,
um fermentar interno, uma colmeia,
um deslizar da âncora no fundo.
......................................................
......................................................
......................................................
......................................................

Mário Cláudio

Do Espelho de Vénus de Tiago Veiga, Prefácio de José Carlos Seabra Pereira, Desenhos de Júlio Resende, arcádia, Edição Babel, Maio de 2010

14.9.10

[as mãos perderam as asas]

8.


as mãos perderam as asas.
com a queda
os ossos
ficaram com um punho de terra.

José Félix

Teoria do Esquecimento, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, Maio de 2009

12.9.10

[Quatro seitas]

Quatro seitas
O mesmo sono
sob a lua cheia

Matsuo Bashô

O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, Antologia poética, Versões de Jorge de Sousa Braga, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2006

9.9.10

OS USURÁRIOS

Monstros ornitomorfos,
em grandes jaulas negras,
os usurários.

Aí está Topete Branco (Grande Usurário Real)
e o Usurário-Abutre, o das grandes planuras,
e o Torpedo Vulgar, que devora os filhos,
e o Rabidaga de cauda desprezante,
que devora os próprios pais,
e o Vampiro Mergánsar,
que chupa sangue e voa sob o mar.

No ócio forçado
de suas enormes jaulas negras,
os usurários contam e recontam as plumas
e trocam-nas a juros.

Nicolás Guillén

O GRANDE ZOO, Centelha - Promoção do Livro, SARL, Coimbra, 1973

6.9.10

A VITÓRIA ESSENCIAL

Foi sempre um único homem um pobre homem
que durante séculos e séculos
levantou esta mão que eu levanto agora
na solidão do mundo
em vão sempre e não em vão
em revolta absoluta de incontível humanidade
levanto esta mão que levanto agora
contra
a prepotência diabólica
que um dia será cinza da sua vergonha inominável
cinza sem futuro
absorvida pelo azul da realidade humana essencial.

António Ramos Rosa

                                                                       in Choque e Pavor, 2003

O POETA NA RUA, Selecção e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi Edições, Julho de 2005

26.8.10

SONETO CONTRA AS PESPORRÊNCIAS

É favor não pedirem a esta poesia
que faça o jeito às alegadas tendências
do tempo nem às vãs experiências
que sempre a deixaram de mão fria

o que iria bem mas mesmo bem seria
num jornal a coluna das ocorrências
as coisas da vida mais que as pesporrências
editoriais do comentador do dia

o que vai mal com ela são as petulâncias
de que se vestem muitas redundâncias
dando-se públicos ares de sabedoria

que o leitor farto das arrogâncias
magistrais troca por outras instâncias
onde pode mandá-las pra casa da tia

Fernando Assis Pacheco

A MUSA IRREGULAR, Assírio & Alvim, Novembro 2006

21.8.10

CRÓNICAS

Mulheres de canastra à cabeça, que num recôncavo
de esquina, não calcetada, onde uma nesga
de terra desmentia o urbanismo
invasor, mijavam de pé
com rara pontaria dissimulando
entre as grossas saias, as
pernas afastadas. Não usavam cuecas
tal como uma modelo da Vogue,
cujo profundo decote dorsal,
prolongado abaixo da cintura,
as abolia.

Coincidências
da baixa plebe
e da alta-costura.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, & etc, 2010

14.8.10

espinhos

os espinhos florescem
sobre o rosto.
rasgam estas mãos
para melhor dilatarem
a força da corrente.
antecipo a morte
para destruir a morte.
difundo sobre as águas
a imagem do sangue -
que enobrece a madeira
e a pureza da tinta.

Ruy Ventura

INSTRUMENTOS DE SOPRO, Edições Sempre-em-Pé, Março de 2010

4.8.10

Resumo

Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar da sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.

Adélia Prado

com a devida vénia, de Poesia reunida, Editora Siciliano, São Paulo, 1999

1.8.10

DEMÓCRITO

Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.

Eugénio Lisboa

com a devida vénia, de O Ilimitável Oceano (Algumas Observações), Quasi Edições, Março, 2001

30.7.10

RELÓGIO

Batem horas. Pancadas de posse
martelando meu crânio suado.
Batem horas no companheiro ao lado
- um relógio de tosse.

Luís Veiga Leitão

SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, SARL, Porto, Fevereiro de 1973

22.7.10

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

                    negócio
                      ego
                          ócio
                            cio
                              0


José Paulo Paes

POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX  DOS MODERNISTAS À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Fevereiro de 2002

19.7.10

exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny

CESARINY   UMA GRANDE RAZÃO os poemas maiores, Assírio & Alvim, Março de 2007

15.7.10

Futebol dos Filósofos


[vídeo de walternetobr sobre comédia de Monty Phyton]

com a devida vénia, retirado de abracadabra!

14.7.10

RELÂMPAGO

Não me orgulho de nada:
O mundo foi severo.
A conta, após contada:
Zero.

Anda à volta de mim
Quem não sabe quem sou.
Eu fui-me sempre assim,
Ou...?

Vejo os outros que passam
Pobres de ser alguém.
Inúteis, ameaçam
Quem?

Um nome vale um ano,
Ou apenas um mês.
Há-de descer o pano
Sem me chegar a vez.

                             (2004)

António Manuel Couto Viana

RESTOS DE QUASE NADA E OUTRAS POESIAS, Averno, Lisboa, 2006

6.7.10

[poeta menor]

Riacho de tão vizinhas
margens na garganta,
voz corrente; em mim,
apenas este açude.
Aqui remodelo
as pequenas estruturas do ócio.
Linguagem pedestre,
sem mesmo a chapelada
sediciosa do til.
E a vida ensaia,
da aleta ao lábio,
a rubrica - sua cava ruga
de mofa sob o pranto.

Sebastião Alba

UMA PEDRA DESTE LADO DA EVIDÊNCIA, Campo das Letras - Editores, S.A., 2000