13.6.10

[TRÂNSITO DE SENTIDO ÚNICO]

Ao nascer do Sol descemos à praça
por desfastio ou engano: a noite,
que parecia eterna, termina agora
com um intragável gosto a cinza,
a quase nada.

A experiência, o nosso obstáculo.

Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
por que não?

A alternativa não é grande coisa.

Rui Pires Cabral

CAPITAIS DA SOLIDÃO, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2006

5.6.10

A MOSCA

entre mim e a cena
a vidraça
nua a não ser ela

com o ventre por terrra
cintada pelas suas tripas negras
antenas transtornadas asas unidas
patas aduncas boca sugando o ar
acutilando o azul esmagando-se contra o
                                              [invisível
sob o meu polegar impotente ela põe de
                                              [pantanas
o mar inteiro e o céu sereno

Samuel Beckett

POEMAS ESCOLHIDOS, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1970 

8.5.10

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e os seus dircursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

2.5.10

[Dói este vocábulo:]

Dói este vocábulo:
Mais secreto
quanto mais o luto
invade.

«PÁTRIA»

Protegido em simulado
vácuo.

Nele procuramos
o osso, a brasa,
a raiz fértil.

Dói este vocábulo:
coração modelado
em labareda.

Egito Gonçalves

O FÓSFORO NA PALHA, Publicações Dom Quixote, Abril de 1970

17.4.10

JANELA DO CONVENTO DE CRISTO EM TOMAR

Um país precisa de uma janela
por onde se possa olhar

Jorge de Sousa Braga

O Poeta Nu, Fenda Edições, Lisboa, 1999

8.4.10

a palavra no fundo

abaixo do lago
abaixo do medo
abaixo do não

no fundo do fosso
o discurso lodoso
do verbo

Ozias Filho

Páginas Despidas, Edição de Ardósia Associação Cultural, Outubro de 2005

7.4.10

Transubstanciação da luz

Algures na sombra das árvores
um olhar integral demasiado vivo
a ferir de espanto o amor
a tansubstanciação da luz
rente ao chão

João Manuel Ribeiro

TRAJECTÓRIA INCONSÚTIL DO DESEJO, Edição Livros de Horas (Tropelias & Companhia) Outubro de 2009

1.4.10

[Tenho nós]

Tenho nós
dentro de mim
que tenho
de desatar

Tenho nós
dentro de mim
que me estão
a estrangular

Adília Lopes

                                     LE VITRAIL LA NUIT
                                                     *
                                     A ÁRVORE CORTADA,

                                       &etc, 2006

31.3.10

CORO DAS AMAS DO CARDEAL

Dar a teta a uma criança
ou dar a teta a um bispo
é como entrar numa dança
em que o corpo não descansa
porque o velho não amansa
e eu mais que a teta não dispo.

E se o bispo é cardeal
e o cardeal é regente?
Dar o peito não faz mal
dar o corpo é natural
pois quem manda em Portugal
mama na teta da gente.

Porém deitada na cama
não sou dele nem de ninguém.
Mesmo se o velho me chama
não me importa de ser ama
se quem a carne me mama
me rói os ossos também.

António Lobo Antunes

LETRINHAS DE CANTIGAS, Publicações Dom Quixote, Outubro de 2002

28.3.10

JOGOS

Nunca te disseram
que a aparência é só
o primeiro lance. Em todos
os jogos há sempre
uma carta escondida.

Albano Martins

ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras Editores, S.A., Maio de 1999

25.3.10

PARABÉNS

Neste Fevereiro distante
a alegria poisa devagar

não me quero lembrar de nada
entrego as botas e um a um
entramos no grande centro cultural

o último poeta foi atropelado em Braga
morreu no hospital público
com direito a névoa pela manhã

oh o barulho da responsabilidade
a expansão do deserto ao primeiro toque
começa-se por dormir vestido
e depois o pasmo
o risco de vender um verso por desfastio

João Almeida

GLÓRIA E ETERNIDADE, Edição Teatro de Vila Real, Abril de 2009

20.3.10

Diário

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

Ana Salomé

RESUMO a poesia em 2009, Assírio & Alvim, Março de 2010

18.3.10

E OPOSTOS

O amor e o ódio
ali jazem ambos:
o tempo domando,
o espaço sem bordas.

Sempre revigoram
se findos julgamos
sua seiva morta
seu alor mirrando.

Presentes   de sempre
no desenrolar
do vão dia a dia,

somente eles vencem
qualquer acalmia
e opostos perduram
descontinuados
em estuante luta.

António Salvado

ESSA ESTÓRIA, Portugália Editora, Junho de 2008

14.3.10

FEIOS, PORCOS E MAUS - ETTORE SCOLA (1976)


Compram aos  catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director-executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva

MOVIMENTOS NO ESCURO, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Novembro de 2005

10.3.10

[Meia sola é meia sola]

7.


Meia sola é meia sola.
Será por isso que a cola
me cheira tanto a vinagre?

Mas meia sola é milagre.
E eis o que ninguém sabe:
que neste cantinho cabe,
na penumbra da oficina,
na casca do coracol,
esta pequena aspirina
que é a largueza do sol.

Pedro Tamen

O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

8.3.10

SANTO E SENHA

Desengaçar a alegria
do chato amável mundo


                                     Lisboa
                                              VII-91

Fernando Assis Pacheco

RESPIRAÇÃO ASSISTIDA, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2003

6.3.10

DE «A CORDIAL BOTELHA»

1

D. Florinda, rotunda,
de seio farto, infarte certo,
lugar-comum e tradição,
desoprime-se comigo
e ralha-me em tom amigo:

- Oh que carago!
Olha que o Porto é uma nação!

2

- Já agora logo de manhã...
Prontificam-se os algarvios
não-te-rales e papa-figos,
quando não querem (que tios!)
que lhes encanem a perninha à rã.

3

Prontifica-se
a fazer,
mas fica-se
no dizer.

Pronto! Fica-se...
Que se lhe
há-de
fazer?

4

Tome cuidado, senão
fazem-no Dr. do pé prà mão.
Mas se Dr. não diz que é,
fazem-no cão da mão prò pé.

Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Porto, Setembro de 1969

28.2.10

[há o coração é o cão]




há o coração é o cão
preso por uma carícia
não sou eu que o prendo
o cão é que me solta

Joaquim Castro Caldas

, edições apalavrados

18.2.10

Artes & Ofícios


com a devida vénia, do blogue Humor Antigo

10.2.10

O PROFESSOR DE FILOSOFIA

O professor de filosofia saíra do manicómio.
A filha morrera, nunca lhe tinha sido
isso explicado, nem ele, que gostava de lógica,
fora capaz. Os rapazes tinham a mesma idade:
desfrutavam a gaguez, o Sócrates.
Nem piedade ensinava. Aprendia
a cicuta da ferocidade.

António Osório

Planetário e Zoo dos Homens, Editorial Presença, Lisboa, 1990

7.2.10

VIOLENTÁMOS A NATUREZA QUANDO MATÁMOS AS NOSSAS FERAS

Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
copiava uma inocência como feras.

Homens como os feras devoraram
devoraram os anjos como feras.
A inocência vestiu-se de roxo
pelo luto das futuras eras.

Natália Correia

AS Maçãs de ORESTES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970

6.2.10

HELIODORO BAPTISTA " Sem data"

            (Ao Luís Carlos Patraquim)


Que tipo de desagregação interior
nos excita a língua, em flecha tensa
para que a bisga, de verdete propensa
acerte na boca labrosta do ditador?

Heliodoro Baptista

Poemas, Leya, Janeiro de 2009

1.2.10

TÚNEL

E então, de quando em quando,
no meio da escuridão,
a redundância de um túnel.

Deus, por onde andava eu
quando a luz foi repartida?

A. M. Pires Cabral

QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

21.1.10

Ideologia 1

Tinha um braço maneta e para o esconder
Andava sempre com uma bandeira.

Tasos Leivaditis

Di Versos, Revista semestral de Poesia e Tradução - N.º 8, Inverno de 2004

19.1.10

ARREPIO NA TARDE

Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.

Eugénio de Andrade

Os Sulcos da Sede, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Setembro de 2001

18.1.10

A FACA

A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe lume pedra
lume silêncio metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

José Carlos Ary dos Santos

OBRA POÉTICA, edições Avante!, Julho de 1999

13.1.10

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões de tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
                                                                           [sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

27.12.09

Poemas de Pedra e Cal

Edificamos a nossa casa dos sonhos
com tijolos e cimento, com a massa

feita à mão.

E tu dizes-me: olha este acabamento!
e dali saem asas de andorinha
e a casa começa por palavras
e termina no telhado com poemas...

Fernando Morais

republicação, de Poemas de Pedra e Cal (inéditos)

26.12.09

ASSIM COMO ABRIR OS OLHOS

achei a agulha
que perdi no palheiro
não foi graças a cunhas
a favores
a intrigas
a ameaças

piquei-me

Francisco Gonçalves de Oliveira

E LOGO ONTEM O FUTURO, Poemas, Edição do Autor, Porto, 2009

6.12.09

O Sermão

Do púlpito saíam sons tremendos
não era fala de gente nem guinchos de bicho
eram ameaças para além da morte
eram chibatadas e roufenhas
quase palavras de castigo

As inocentes vítimas sentadas
murmuravam de cabeça baixa
num templo de fios eléctricos
microfones e sintetizadores...

Às tantas o discurso acabou
e passou a saca das esmolas
toda ufana e contente...

era a única que não estava assustada!

Fernando Morais

(Inéditos)

3.10.09

porcelana

o rosto esmaltado da menina
nascida em londres
no ano da graça de 1894
em relevo na tampa
da lata de caramelos
ficou preso na armadilha lilás
da minha insônia




Júlio Saraiva


do livro inédito SE EU MORRER ONTEM OU QUE SE DANE A FESTA

6.7.09

DITOS

Ignoro a lei, do mais forte
colho fraquezas. Jogo a indecisão
ao limite das escolhas e do reverso
medalho o peito: ao esteta cabe
a resolução da tinta sobre a tela.


       Estatelo o concreto
       e me abstraio
       ao recente: arranco pregos
       depositados e entrecuzo
       vidas. Desenrolo a lei
       ofertada ao amigo. Aos inimigos
       deposito moedas cunhadas
       em honra da vitória.


Pedro Du Bois


(inédito)