27.4.14

Vasco Graça Moura (1942-2014)

vita brevis


a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,

é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou

pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,

nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.

Vasco Graça Moura

UMA CARTA NO INVERNO, Quetzal Editores, Lisboa, 1997

25.4.14

25 de Abril
















[Nikias Skapinakis - «Delacroix no 25 de Abril em Atenas». 1975]



22.4.14

Grande Prémio Press Cartoon Europe














                                  Boas Notícias

3.4.14

COMPOSIÇÃO E INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS





















Engolir cobras, lagartos,
elefantes, crocodilos,
e calar, mesmo que fartos
de bramidos e sibilos;

remastigar a dieta
que basta à sopa dos pobres,
sem um ai, uma careta
- um puro esgar e descobres

a expulsão a pontapé
ou o desprezo, mais leve,
assim obriga, assim é
o que a receita prescreve,

em nome da vil tristeza
para cevar a riqueza.

Domingos da Mota

édito 
(com a ilustração do artista plástico Carlos Mansil, o primeiro dos comprimidos literários, n'A Bula, de Abril de 2014, do Correio do Porto).

1.4.14

A BULA - Abril de 2014

























Alguns comprimidos literários, de fabrico caseiro, num laboratório bissexto, ilustrados pelo artista plástico Carlos Mansil,  n'A BULA, do Correio do Porto.

6.3.14

Leopoldo María Panero (1948-2014)

Faleceu hoje o poeta Leopoldo María Panero. A notícia, e o seu perfil, no El País.

11.2.14

Miró















                      
Joan Miró,  Azul II, 1961





De chave na mão
se faz (quem diria)
a licitação,
melhor, se faria

o dito leilão,
não fosse a porfia
da contestação,
não fosse o banzé,

não fosse o senão
do tiro no pé.
De olho em Miró,

negou-se o pregão
dos quadros, e:
- oh!

 

© Domingos da Mota

10.12.13

PAX RURIS

Não foi esta a pax ruris que escrevi
com o meu lápis cronicamente rombo --

esta sáfara, cinzenta, silenciada
pax ruris com sinais de podridão
e nenhum estrépito de vida.

M. A. Pires Cabral

gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013

18.11.13

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina

POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2011

16.10.13

RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos anos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

Uma Faca nos Dentes, Prefácio de Herberto Helder, edição de Zetho Cunha Gonçalves, desenhos e fotografias de Aldina, Parceria A. M. Pereira, 2.ª edição aumentada, Lisboa 2003

13.10.13

Ode ao cianeto

Vós que suportais a miséria imposta
por estes que outras coisas prometeram
e pondes sal na ferida exposta
e recalcais os medos que se geram;
vós que lidais como quem se apouca
perante as mais torpes vilanias
de gente quase cega, surda e louca
que se arroga o papel doutro Messias;
vós que sois ajustados, confiscados,
usados como carne para canhão
na guerra impassível dos mercados,
em nome duma estranha salvação;
vós que mal podeis com o esqueleto,
olhai e vede bem o cianeto.


 © Domingos da Mota




23.9.13

António Ramos Rosa (1924-2013)

POEMA

As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse ao ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

António Ramos Rosa

 O GRITO CLARO (selecção de poemas), [Segunda Parte], Colecção «A Palavra», n.º 1 Faro - 1958

19.9.13

Herberto Helder : Um quarto dos poemas é imitação literária



    com a devida vénia, um poema do livro Servidões, de Herberto Helder,
                                      dito por Fernando Alves

14.9.13

13.9.13

A DEFESA DO POETA

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

     Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de 
tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado que
sensatamente me advertiu  de  que  essa  minha insólita leitura no
decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sen-
tença.

Natália Correia

Antologia Poética,  [A Mosca Iluminada], Prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2002 

1.9.13

EPITÁFIO DE UM TIRANO

Uma certa perfeição era o que ele procurava,
A poesia que inventava era de fácil compreensão;
Conhecia a loucura humana como as costas da mão,
Exércitos e esquadras eram coisas muito suas;
Quando ria, os senadores riam às gargalhadas,
E quando gritava, as crianças morriam nas ruas

W. H. Auden

Antologia de Poesia Anglo-Americana De Chaucer a Dylan Thomas, Selecção, tradução, prefácio e notas de António Simões, Campo das Letras, Editores, S. A., Outubro de 2002

30.8.13

Seamus Heaney (1939-2013)

Limbo

Pescadores em Ballyshannon
Apanharam esta noite uma criança
Na rede, juntamente com o salmão.
Uma desova ilegítima,

Pequeno ser devolvido
Às águas. Mas estou certo
Que quando ela, nos baixios,
O mergulhou ternamente

Até os nós gelados dos dedos
Estavam mortos como os seixos,
Ele era um isco com anzóis
A rasgá-la por dentro.

Ela entrou na água sob 
O sinal da sua cruz.
Ele veio na rede com o peixe.
Agora o limbo será

Um frio reluzir de almas
Numa região distante e salgada.
Mesmo as palmas de Cristo, por sarar,
Doem e não conseguem pescar lá.

Seamus Heaney

DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997

12.8.13

UHF - Vernáculo

NÃO GRITEIS MAIS

Cessai de matar os mortos,
Não griteis mais, não griteis,
Se os desejais ainda ouvir,
Se confiais em não cair.

Têm o imperceptível sussurro,
Não fazem mais rumor
Do que o crescer da erva
Alegre onde não passa o homem.

Giuseppe Ungaretti

SENTIMENTO DO TEMPO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971

9.8.13

Nocturno

Ver-te-ei por ventura de novo
subitamente
ao pé daquela fonte
onde os pardais e os ganhões se juntavam
no fim da jorna
e as brancas pombas vinham bicar
grãos de luz
sob a exaustão do dia
e havia franças de árvores a adormecerem
na agonia da esperança?
Não nunca mais verei o verde
dos teus olhos essa ternura arisca
Quando te perdi comecei
a atravessar o ácido rio do silêncio
Depois essa dor encolheu
como todas as coisas
No reflector que há dentro de mim
capto agora a imagem insólita
da lua e vejo a respiração dos poços
à volta da vila sonhando
a muda tristeza das suas muralhas
Anoiteço sem lágrimas 
e continuo a sofrer sem saber já exactamente
se sofro por ti que partiste
ou por esta despedida de mim

                                                                                          2008
Urbano Tavares Rodrigues

Horas de Vidro, [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote,  Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011