5.3.23

António Salvado (1936-2023)

Um fio de água


Um fio d'água foi o teu passar
tão fugidio que os meus olhos    presos
àquele movimento de surpresa
quase sem ver    mas vendo-te    ficaram.

Tua figura esguia meneava-se
como folhas vernais dum arvoredo
que uma brisa veloz tivesse aflado
subitamente para mais crescerem.

E assim cruzaste a minha solidão
sorrindo tão de leve que nem lembro
se para mim olhaste    em tal exílio.

Mas satisfez o que me deste    então:
que uma fonte escondida existe sempre
capaz de brotar água: seja um fio.


António Salvado

Um fio de água
, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo MMXII

7.2.23

AVARENTO

Cobiça
concupiscente a moeda

o metal com um sorriso
avarento infinitesimal


Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

7.1.23

TOCATA


Outra vez um nome:
rosto aceso, altivo,
com os olhos
pensativos, desfocados:

desvenda, abre sulcos
fatigados - de súbito
mais chão, rugoso, acídulo
Recorda, lembra

o mosto, o vinho,
o trigo, os dias
luminosos, demorados

(E os ossos a latir,
destemperados, laceram
o fulgor do lume vivo)


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

26.3.22

O ÁLIBI DO MAL

Separados por biombos de peluche,
sem nada para ler ou esperar, assimilamos
por fim o edital da derrota,
encaixamos o cansaço como um soco
na língua e entregamos ao desânimo
o migalho de madeira com que contávamos,
estupidamente, aquecer mais um Inverno.

Campanários sepultados em monturos,
a isto chegámos: a nulidade da razão
estrangulada, com sua voz de sino mole
a musicar a capoeira do instinto,
no abismo da natura devastada.

Entretanto, nas notícias, baterias de peritos
acolitam, iludidos, espectáculos de treva,
sugerem emoções, ensinam o rebanho
a construir o seu curral, suplicando
que a história passe longe do estouro.

O que resta é absurdo e penitente:
trocar a pilha ao relógio de sol,
acertá-lo pela hora da morte.
O álibi do mal é fazer-se desejar.


José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Lisboa, Junho de 2017

20.3.22

Gastão Cruz (1941-2022)

VISÃO DE HERBERTO HELDER
DA MORTE DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

cf. HH, Poemas Canhotos

António ramos rosa cuja morte
herberto viu sem a ela assistir
estava, segundo o testemunho obtido
através da visão vinda num frio
relâmpago, deitado numa cama
a dele, contra a parede

Há que dar meia volta com a cara
contra a parede para entrar na morte
totalmente
isso aprendeu herberto e compreendeu
ao ver-se nessa morte em que não estava
que se via num espelho

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro de 2017

5.3.22

Prolegómenos a um armistício pró-paz

Ir ao encontro do outro
Aproximar-se do outro
Cumprimentar o outro
Sentar-se à mesa com o outro
Olhar o outro nos olhos
Ver o outro
Reparar no outro
Falar com o outro
Conversar com o outro
Ouvir o outro
Escutar as razões do outro

Expor as suas razões
Debater as razões de ambos
Pôr-se no lugar do outro
Manter a cabeça fria
Congelar o ódio
Suspender os combates
Abrir corredores de segurança
Não acossar o outro
Não cercar o outro
Não intimidar o outro
Não humilhar o outro

Não massacrar o outro
Não aterrar o outro
Não devastar o outro
Tratar com o outro
Declarar tréguas
Respeitar o outro
Respeitar-se a si mesmo
Selar o armistício
Reconstruir pontes
Abrir caminhos para a paz



© Domingos da Mota

1.1.22

FICÇÃO CIENTÍFICA

Se eu tivesse uma máquina do tempo,
Teria de ter cuidado,
Porque essa máquina,
Como todas as máquinas,
Teria um tempo
De duração,
E, um belo dia,
Deixar-me-ia
Parado
A meio de um desastre
Do futuro
Ou do passado.


José Pascoal

Branza, Editorial Minerva, Lisboa, Agosto de 2019

26.12.21

João Paulo Cotrim (1965-2021)

Não devia ser assim:
chegar-se tão cedo
ao fim.

© Domingos da Mota


 

22.12.21

[Quem tem cu tem medo]

Quem tem cu tem medo
e sobre o sofrimento nunca se enganaram,
os velhos mestres.



Andreia C. Faria

Este Fresco Sanatório para o Sangue, Editor Câmara Municipal do Porto - Museu da Cidade, Porto, agosto de 2021

4.7.21

POEMA

no meio da estrada
um texugo morto
sonha com o vento

Luís Serra



NERVO/11 colectivo de poesia (maio-agosto 2021)

13.5.21

Diálogo

- Como estás?

- Cá vou.


- E tu, como vais?

- Cá estou.


© Domingos da Mota

17.4.21

Atirei pedras ao vento

Atirei pedras ao vento
Atirei pedras ao mar

O vento trouxe-me areia
Das nuvens caiu granizo


© Domingos da Mota

22.1.21

[Urgência de vacinas:]

Urgência de vacinas:
contra a Covid
contra o fascismo


© Domingos da Mota

3.1.21

Debate

Não foi um debate.
Foi um atropelo.
(Seria um combate
Se pudesse sê-lo)

Sem moderação
Nem regras nem lei
A confrontação
Que presenciei.

De um lado, a feroz
Arrogância fruste
De galaró:
Um grosseiro embuste.

Do outro, a noção,
A prova, o sinal,
A demonstração
Do porquê do mal.

© Domingos da Mota

31.10.20

Política literária

                A Manuel Bandeira


O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Carlos Drummond de Andrade


Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2015