31.12.24

Adília Lopes (1960-2024)

Tenho uma vida
a viver
e uma morte
a morrer


Adília Lopes



LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA
, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006

8.12.24

Avó

minha santíssima avó
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação

sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo

compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada

nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos

quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão

sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra

Zbigniew Herbert

POESIA QUASE TODA (1956-1998)
, Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024

27.7.24

16.6.24

[Apanhado por um pico]

Apanhado por um pico
de popularidade o modelo Varoufakis
de mochila esgotou-se.


Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água
, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2017

17.5.24

Casimiro de Brito (1938-2024)

Música Nua



39.


É o barro
que se converte
em mulher
ou a mulher que
em luz
se converte?


Casimiro de Brito

Música NuaCoisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017

26.4.24

Canção Do Salgueiro ( Lyric Video )


Letra, música e voz de Carlos Tê

21.4.24

O CARANGUEJO

O caranguejo
talvez seja bom rapaz
não digo que não
mas quando o vejo
a andar para trás
faz-me lembrar a Revolução.


(Set. 1983. Inédito)

Carlos Pinhão



POEMABRIL
Antologia poética, organizada por Carlos Loures e Manuel Simões, 2.ª edição, no XX Aniversário de 25 de Abril, Fora de Texto, Coimbra, 1994

9.4.24

Eugénio Lisboa (1930-2024)

O JOVEM CONSERVADOR


Não há coisa mais ridícula
que ser jovem de direita:
a esse nem a clavícula
sequer se lhe aproveita!

Ser jovem e conservar
o que nem sequer se tem
é o mesmo que não usar
o vigor que é um bem!

Ser jovem e de direita
é grande contradição:
o jovem o futuro espreita,
a direita quer ramerrão!

Ser jovem conservador
é ser velho antes do tempo:
em vez de visar o alvor,
tropeçar num contratempo!


É cómico mas é triste:
o vigor da juventude
que pede calor e chiste
reduzido a quietude!


10.05.2020



Quando, pela primeira vez, em 1963, fui a Londres, vi um programa de
televisão em que o alvo sistemático da chacota era o young conservative.
O programa era incrivelmente cómico e certeiro. Nunca esqueci esses mo-
mentos desopilantes. Mas como o cómico pode ser também muito triste!

Eugénio Lisboa

Poemas em Tempo de Peste
, Guerra e Paz Editores, S. A., Lisboa, Setembro de 2020

22.2.24

Sessão de poesia

poesia com Gaza

na Livraria UNICEPE, em 3 de Novembro de 2023,
com a participação de:

Augusto Baptista
Domingos da Mota
Eugénia Soares Lopes
João Pedro Mésseder

28.9.23

Trinta

Qual a diferença...
entre um cego
e aquele que não quer ver.

Qassim Haddad

UM ÁRABE É UM ÁRABE, É UM ÁRABE, UM ÁRABE
, breve antologia de poesia árabe, textos introdutórios, Daniel Ferreira e Joana Santos, versões e traduções, André Simões e Joana Santos, 4.ª edição, contracapa, Vila Meã, Setembro de 2023:24

16.9.23

Este é um lugar onde...

Este é um lugar onde
a brusquidão da língua
faz crescer por vezes
flores hirsutas.


João Pedro Mésseder


O Porto Com Suas Palavras, Edições Plenilúnio, Coimbra, Março de 2023:20

19.7.23

5.3.23

António Salvado (1936-2023)

Um fio de água


Um fio d'água foi o teu passar
tão fugidio que os meus olhos    presos
àquele movimento de surpresa
quase sem ver    mas vendo-te    ficaram.

Tua figura esguia meneava-se
como folhas vernais dum arvoredo
que uma brisa veloz tivesse aflado
subitamente para mais crescerem.

E assim cruzaste a minha solidão
sorrindo tão de leve que nem lembro
se para mim olhaste    em tal exílio.

Mas satisfez o que me deste    então:
que uma fonte escondida existe sempre
capaz de brotar água: seja um fio.


António Salvado

Um fio de água
, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo MMXII

26.3.22

O ÁLIBI DO MAL

Separados por biombos de peluche,
sem nada para ler ou esperar, assimilamos
por fim o edital da derrota,
encaixamos o cansaço como um soco
na língua e entregamos ao desânimo
o migalho de madeira com que contávamos,
estupidamente, aquecer mais um Inverno.

Campanários sepultados em monturos,
a isto chegámos: a nulidade da razão
estrangulada, com sua voz de sino mole
a musicar a capoeira do instinto,
no abismo da natura devastada.

Entretanto, nas notícias, baterias de peritos
acolitam, iludidos, espectáculos de treva,
sugerem emoções, ensinam o rebanho
a construir o seu curral, suplicando
que a história passe longe do estouro.

O que resta é absurdo e penitente:
trocar a pilha ao relógio de sol,
acertá-lo pela hora da morte.
O álibi do mal é fazer-se desejar.


José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Lisboa, Junho de 2017

20.3.22

Gastão Cruz (1941-2022)

VISÃO DE HERBERTO HELDER
DA MORTE DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

cf. HH, Poemas Canhotos

António ramos rosa cuja morte
herberto viu sem a ela assistir
estava, segundo o testemunho obtido
através da visão vinda num frio
relâmpago, deitado numa cama
a dele, contra a parede

Há que dar meia volta com a cara
contra a parede para entrar na morte
totalmente
isso aprendeu herberto e compreendeu
ao ver-se nessa morte em que não estava
que se via num espelho

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro de 2017

1.1.22

FICÇÃO CIENTÍFICA

Se eu tivesse uma máquina do tempo,
Teria de ter cuidado,
Porque essa máquina,
Como todas as máquinas,
Teria um tempo
De duração,
E, um belo dia,
Deixar-me-ia
Parado
A meio de um desastre
Do futuro
Ou do passado.


José Pascoal

Branza, Editorial Minerva, Lisboa, Agosto de 2019

26.12.21

João Paulo Cotrim (1965-2021)

Não devia ser assim:
chegar-se tão cedo
ao fim.

© Domingos da Mota