Tenho uma vida
a viver
e uma morte
a morrer
Adília Lopes
LE VITRAIL LA NUIT
A ÁRVORE CORTADA, & etc, Lisboa, Fevereiro de 2006
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Livro dos Conselhos, El-Rei D. Duarte
31.12.24
8.12.24
Avó
minha santíssima avó
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação
sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo
compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada
nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos
quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão
sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra
Zbigniew Herbert
POESIA QUASE TODA (1956-1998), Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024
com um vestido comprido justo
abotoado
com uma quantidade incontável
de botões
qual orquídea
qual arquipélago
qual constelação
sento-me no seu colo
e ela conta-me
o universo
de sexta
a domingo
compenetrado
sei tudo –
– sobre ela
a única coisa que oculta
é a sua origem
avó Maria apelido de solteira Balaban
Maria Calejada
nada diz
sobre o massacre
da Arménia –
o massacre dos Turcos
quer poupar-me
conceder-me vários anos de ilusão
sabe que chegará o dia
em que o descobrirei por mim mesmo
sem palavras maldições e lágrimas
a superfície
áspera
e a profundidade
da palavra
Zbigniew Herbert
POESIA QUASE TODA (1956-1998), Introdução de J. M. Coetzee, Selecção de J. M. Coetzee e Alissa Valles, Tradução do polaco e notas de Teresa Fernades Swiatkiewicz, Edição Cavalo de Ferro, Penguin Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda., Lisboa, Outubro de 2024
25.10.24
27.7.24
16.6.24
[Apanhado por um pico]
Apanhado por um pico
de popularidade o modelo Varoufakis
de popularidade o modelo Varoufakis
de mochila esgotou-se.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Quatro Garrafas de Água, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2017
Quatro Garrafas de Água, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2017
17.5.24
Casimiro de Brito (1938-2024)
Música Nua
39.
É o barro
que se converte
em mulher
ou a mulher que
em luz
se converte?
Casimiro de Brito
Música Nua, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017
26.4.24
21.4.24
O CARANGUEJO
O caranguejo
talvez seja bom rapaz
não digo que não
mas quando o vejo
a andar para trás
faz-me lembrar a Revolução.
Carlos Pinhão
POEMABRIL Antologia poética, organizada por Carlos Loures e Manuel Simões, 2.ª edição, no XX Aniversário de 25 de Abril, Fora de Texto, Coimbra, 1994
talvez seja bom rapaz
não digo que não
mas quando o vejo
a andar para trás
faz-me lembrar a Revolução.
(Set. 1983. Inédito)
Carlos Pinhão
POEMABRIL Antologia poética, organizada por Carlos Loures e Manuel Simões, 2.ª edição, no XX Aniversário de 25 de Abril, Fora de Texto, Coimbra, 1994
9.4.24
Eugénio Lisboa (1930-2024)
O JOVEM CONSERVADOR
Não há coisa mais ridícula
que ser jovem de direita:
a esse nem a clavícula
sequer se lhe aproveita!
Ser jovem e conservar
o que nem sequer se tem
é o mesmo que não usar
o vigor que é um bem!
Ser jovem e de direita
é grande contradição:
o jovem o futuro espreita,
a direita quer ramerrão!
Ser jovem conservador
é ser velho antes do tempo:
em vez de visar o alvor,
tropeçar num contratempo!
É cómico mas é triste:
o vigor da juventude
que pede calor e chiste
reduzido a quietude!
que ser jovem de direita:
a esse nem a clavícula
sequer se lhe aproveita!
Ser jovem e conservar
o que nem sequer se tem
é o mesmo que não usar
o vigor que é um bem!
Ser jovem e de direita
é grande contradição:
o jovem o futuro espreita,
a direita quer ramerrão!
Ser jovem conservador
é ser velho antes do tempo:
em vez de visar o alvor,
tropeçar num contratempo!
É cómico mas é triste:
o vigor da juventude
que pede calor e chiste
reduzido a quietude!
10.05.2020
Quando, pela primeira vez, em 1963, fui a Londres, vi um programa de
televisão em que o alvo sistemático da chacota era o young conservative.
O programa era incrivelmente cómico e certeiro. Nunca esqueci esses mo-
mentos desopilantes. Mas como o cómico pode ser também muito triste!
Eugénio Lisboa
Poemas em Tempo de Peste, Guerra e Paz Editores, S. A., Lisboa, Setembro de 2020
Poemas em Tempo de Peste, Guerra e Paz Editores, S. A., Lisboa, Setembro de 2020
22.2.24
Sessão de poesia
poesia com Gaza
na Livraria UNICEPE, em 3 de Novembro de 2023,
com a participação de:
Augusto Baptista
Domingos da Mota
Eugénia Soares Lopes
João Pedro Mésseder
Augusto Baptista
Domingos da Mota
Eugénia Soares Lopes
João Pedro Mésseder
15.2.24
23.11.23
28.9.23
Trinta
Qual a diferença...
entre um cego
e aquele que não quer ver.
Qassim Haddad
UM ÁRABE É UM ÁRABE, É UM ÁRABE, UM ÁRABE, breve antologia de poesia árabe, textos introdutórios, Daniel Ferreira e Joana Santos, versões e traduções, André Simões e Joana Santos, 4.ª edição, contracapa, Vila Meã, Setembro de 2023:24
UM ÁRABE É UM ÁRABE, É UM ÁRABE, UM ÁRABE, breve antologia de poesia árabe, textos introdutórios, Daniel Ferreira e Joana Santos, versões e traduções, André Simões e Joana Santos, 4.ª edição, contracapa, Vila Meã, Setembro de 2023:24
16.9.23
Este é um lugar onde...
Este é um lugar onde
a brusquidão da língua
faz crescer por vezes
flores hirsutas.
João Pedro Mésseder
O Porto Com Suas Palavras, Edições Plenilúnio, Coimbra, Março de 2023:20
a brusquidão da língua
faz crescer por vezes
flores hirsutas.
João Pedro Mésseder
O Porto Com Suas Palavras, Edições Plenilúnio, Coimbra, Março de 2023:20
19.7.23
AWOL - The Ancient World Online: Loebolus: Open Access to all the public domain Loe...
AWOL - The Ancient World Online: Loebolus: Open Access to all the public domain Loe...: [First posted in AWOL 2 June 2012, updated 25 January 2022] Loebolus Loebolus is based on Edwin Donnelly's “Dow...
5.3.23
António Salvado (1936-2023)
Um fio de água
Um fio d'água foi o teu passar
tão fugidio que os meus olhos presos
àquele movimento de surpresa
quase sem ver mas vendo-te ficaram.
Tua figura esguia meneava-se
tão fugidio que os meus olhos presos
àquele movimento de surpresa
quase sem ver mas vendo-te ficaram.
Tua figura esguia meneava-se
como folhas vernais dum arvoredo
que uma brisa veloz tivesse aflado
subitamente para mais crescerem.
E assim cruzaste a minha solidão
sorrindo tão de leve que nem lembro
se para mim olhaste em tal exílio.
Mas satisfez o que me deste então:
que uma fonte escondida existe sempre
capaz de brotar água: seja um fio.
que uma brisa veloz tivesse aflado
subitamente para mais crescerem.
E assim cruzaste a minha solidão
sorrindo tão de leve que nem lembro
se para mim olhaste em tal exílio.
Mas satisfez o que me deste então:
que uma fonte escondida existe sempre
capaz de brotar água: seja um fio.
António Salvado
Um fio de água, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo MMXII
Um fio de água, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo MMXII
13.12.22
9.6.22
20.5.22
26.3.22
O ÁLIBI DO MAL
Separados por biombos de peluche,
sem nada para ler ou esperar, assimilamos
por fim o edital da derrota,
encaixamos o cansaço como um soco
na língua e entregamos ao desânimo
o migalho de madeira com que contávamos,
estupidamente, aquecer mais um Inverno.
Campanários sepultados em monturos,
a isto chegámos: a nulidade da razão
estrangulada, com sua voz de sino mole
a musicar a capoeira do instinto,
no abismo da natura devastada.
Entretanto, nas notícias, baterias de peritos
acolitam, iludidos, espectáculos de treva,
sugerem emoções, ensinam o rebanho
a construir o seu curral, suplicando
que a história passe longe do estouro.
O que resta é absurdo e penitente:
trocar a pilha ao relógio de sol,
acertá-lo pela hora da morte.
O álibi do mal é fazer-se desejar.
sem nada para ler ou esperar, assimilamos
por fim o edital da derrota,
encaixamos o cansaço como um soco
na língua e entregamos ao desânimo
o migalho de madeira com que contávamos,
estupidamente, aquecer mais um Inverno.
Campanários sepultados em monturos,
a isto chegámos: a nulidade da razão
estrangulada, com sua voz de sino mole
a musicar a capoeira do instinto,
no abismo da natura devastada.
Entretanto, nas notícias, baterias de peritos
acolitam, iludidos, espectáculos de treva,
sugerem emoções, ensinam o rebanho
a construir o seu curral, suplicando
que a história passe longe do estouro.
O que resta é absurdo e penitente:
trocar a pilha ao relógio de sol,
acertá-lo pela hora da morte.
O álibi do mal é fazer-se desejar.
José Miguel Silva
ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Lisboa, Junho de 2017
ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Lisboa, Junho de 2017
20.3.22
Gastão Cruz (1941-2022)
VISÃO DE HERBERTO HELDERDA MORTE DE ANTÓNIO RAMOS ROSA
cf. HH, Poemas Canhotos
António ramos rosa cuja morte
herberto viu sem a ela assistir
estava, segundo o testemunho obtido
através da visão vinda num frio
relâmpago, deitado numa cama
a dele, contra a parede
Há que dar meia volta com a cara
contra a parede para entrar na morte
totalmente
isso aprendeu herberto e compreendeu
ao ver-se nessa morte em que não estava
que se via num espelho
Gastão Cruz
EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro de 2017
1.1.22
FICÇÃO CIENTÍFICA
Se eu tivesse uma máquina do tempo,
Teria de ter cuidado,
Porque essa máquina,
Como todas as máquinas,
Teria um tempo
De duração,
E, um belo dia,
Deixar-me-ia
Parado
A meio de um desastre
Do futuro
Ou do passado.
Teria de ter cuidado,
Porque essa máquina,
Como todas as máquinas,
Teria um tempo
De duração,
E, um belo dia,
Deixar-me-ia
Parado
A meio de um desastre
Do futuro
Ou do passado.
José Pascoal
Branza, Editorial Minerva, Lisboa, Agosto de 2019
Branza, Editorial Minerva, Lisboa, Agosto de 2019
26.12.21
Subscrever:
Mensagens (Atom)
