03/07/2014

Ivan Junqueira (1934-2014)

Rosto


Teu rosto em fuga na vidraça
é uma gota que escorre devagar,
tão devagar que o tempo, avaro,
sequer ensaia um magro passo.
Uma gota que cai, sem lastro,
leve como a asa de um pássaro,
mas tão repleta de presságios
que sinto o frio duma adaga
rasgar-me a carne das ilhargas.
Por que, às vésperas do nada,
a alma desperta, arrebatada?

Ivan Junqueira

           (A Sagração dos Ossos)

Brasil 2000 antologia de poesia contemporânea brasileira, Organização de Álvaro Alves de Faria, Alma Azul, Coimbra, Outubro 2000

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