28.9.23

Trinta

Qual a diferença...
entre um cego
e aquele que não quer ver.

Qassim Haddad

UM ÁRABE É UM ÁRABE, É UM ÁRABE, UM ÁRABE
, breve antologia de poesia árabe, textos introdutórios, Daniel Ferreira e Joana Santos, versões e traduções, André Simões e Joana Santos, 4.ª edição, contracapa, Vila Meã, Setembro de 2023:24

16.9.23

Este é um lugar onde...

Este é um lugar onde
a brusquidão da língua
faz crescer por vezes
flores hirsutas.


João Pedro Mésseder


O Porto Com Suas Palavras, Edições Plenilúnio, Coimbra, Março de 2023:20

7.9.23

Arroz de cabidela

Pois eu gosto de arroz de cabidela,
se o pica no chão, de crista ao lado,
estrugir, quanto baste, na panela
e sair a cantar do refogado.


© Domingos da Mota

19.7.23

2.7.23

CÃO DE PAVLOV

Tanta sede de holofotes.
Tanta fome de palanque.

Tanto cão
de Pavlov.


Domingos da Mota

in 'Tempestade seca e outros poemas', 
e Eufeme n. º 23 Magazine de Poesia (Abril/Junho 2022)

30.4.23

papagaios

palram os milhazes
grasnam os germanos
sempre loquazes
tão acacianos

e dos papagaios
que assim tagarelam
quantos são lacaios
ou peões de brega


© Domingos da Mota


5.3.23

António Salvado (1936-2023)

Um fio de água


Um fio d'água foi o teu passar
tão fugidio que os meus olhos    presos
àquele movimento de surpresa
quase sem ver    mas vendo-te    ficaram.

Tua figura esguia meneava-se
como folhas vernais dum arvoredo
que uma brisa veloz tivesse aflado
subitamente para mais crescerem.

E assim cruzaste a minha solidão
sorrindo tão de leve que nem lembro
se para mim olhaste    em tal exílio.

Mas satisfez o que me deste    então:
que uma fonte escondida existe sempre
capaz de brotar água: seja um fio.


António Salvado

Um fio de água
, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo MMXII

7.2.23

AVARENTO

Cobiça
concupiscente a moeda

o metal com um sorriso
avarento infinitesimal


Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

7.1.23

TOCATA


Outra vez um nome:
rosto aceso, altivo,
com os olhos
pensativos, desfocados:

desvenda, abre sulcos
fatigados - de súbito
mais chão, rugoso, acídulo
Recorda, lembra

o mosto, o vinho,
o trigo, os dias
luminosos, demorados

(E os ossos a latir,
destemperados, laceram
o fulgor do lume vivo)


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, edição: Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010